



Pedro Bandeira

A Droga do Amor



     Capa e ilustraes de Alberto Naddeo
     Mais uma aventura com os Karas!



     Este livro  dedicado a Vanessa Cristina Haneda, de Curitiba, que, em fevereiro de 89, quando estava no primeiro ano do Segundo Grau, escreveu-me, pedindo mais
uma aventura com os Karas. Para o enredo, ela propunha o seguinte:
     "... eu sugeriria uma briga. , uma briga mesmo! Entre o grupo dos Karas, por um motivo de amor, talvez. Mas, depois, surgiria uma situao com os cinco envolvidos,
todos juntos, sem querer, que os faria ver que, separados, eles so fracos, sentem falta um do outro. Sei que eles so superunidos, mas essa pequena separao, seguida
por uma situao em que precisassem ficar juntos de novo, para desvendar um outro crime, por exemplo, daria ao livro uma emoo em dobro. "
     Levei muito tempo, Cristina, mas aqui est o que eu fiz com a sua sugesto. Espero que voc goste.





    1 . TELEGRAMA EM "ISLANDS"

     Magr* acordou e espreguiou-se gostosamente, ainda aconchegadinha sob as cobertas do luxuoso hotel. A perfeita calefao do apartamento amornava o ambiente, 
deixando l fora o gelado inverno americano.
     Entre os seus braos, aquecido por toda uma noite junto ao calor de seu corpo, estava o seu ursinho de pelcia. J era um velho ursinho, to velho quanto ela, 
mas a menina sempre dormia com ele. Era um segredo seu. Imaginem se um dos Karas soubesse disso! Uma aluna do primeiro colegial dormindo abraada a um ursinho, feito 
um beb!
     
     * Chamamos a ateno para a grafia dos nomes Magr e Cal. Embora gramaticalmente incorreta, a acentuao desses nomes visa evitar pronncia diferente daquela 
pretendida pelo autor.
     
     Sobre a mesa de cabeceira, o relgio marcava seis horas. Magr levantou-se, escondeu o ursinho na mala e abriu as cortinas.
     L embaixo estava Nova Iorque, nublada, cinzenta, gelada, e a menina pensou no calor que j estaria fazendo no Brasil quela mesma hora.
     Sentiu saudades. Do pas, da famlia, do Colgio Elite, de cada um dos Karas.
     Os Karas! Os seus Karas! Miguel, Crnio, Cal, Chumbinho e... e ela! Os cinco Karas, aquele grupo secreto de alunos do Colgio Elite que Miguel tinha reunido 
quase por brincadeira, pelo desejo de aventura, mas que acabara se envolvendo em investigaes perigosssimas, em riscos tremendos...
     Magr sorriu ao pensar que muitos policiais aposentam-se sem jamais se defrontar com algo parecido com os desafios que aqueles cinco adolescentes j haviam 
enfrentado.
     Os cinco Karas! Saudades... Uma saudade diferente de cada um. Uma dessas saudades era especial. Era imensa.
     
     ***
     
     A funcionria da agncia do correio sorriu. Nunca tinha passado um telegrama em "islands" antes.
     Quando o menino que entregara o texto para ser enviado a Nova Iorque ia saindo, a funcionria perguntou:
     - Ei, garoto, o que quer dizer "minisgsais"?
     Com o olhar mais cndido e inocente possvel, o menino encarou a moa com um lindo sorriso:
     - Em islands? Quer dizer... hum... quer dizer "mame"... Balanando a cabea, a balconista releu aquele texto to estranho:
     MINISGSAIS VENTERNPOMBER UFTERSGOMBERLPOMBER. 
     KINISSINISR OMBERM TOMBERSAISGENTER 
     CHUFTERMBAISLHENTER
     
     "Que lngua maluca  esse tal de islands...", pensava ela, depois que o menino j tinha ido embora.
     
     ***
     
     Como um furaco que chega sem avisar, uma mulher alta e magra entrou no apartamento de Magr, empurrando um carrinho com um farto caf da manh americano que 
um garom acabara de trazer.
     - Bom dia, bom dia, bom dia, Magr! O que esses americanos pensam? Que ns viemos do Brasil para fazer regime de engorda? Se voc comer a metade do que tem 
nessa bandeja,  melhor mudar da ginstica olmpica para o sum!
     - Bom dia, dona Iolanda! - cumprimentou Magr, sorrindo, ainda  janela.
     - Que bom que voc j est de p. Vamos, vamos, vamos! Voc tem cinco minutos para tomar o seu breakfast. S as frutas e o leite, hein? Ginstica olmpica  
como o bal. Meio quilo a mais e  desastre na certa! Depois uma ducha e vamos direto para o ginsio. Quero que voc faa duas horas de aquecimento, antes de ensaiarmos 
mais uma vez. Lembre-se que a prova final de ginstica de solo vai ser depois de amanh. Vamos, vamos, vamos, menina!
     Magr suspirou. Sua treinadora e tambm professora de educao fsica do Colgio Elite era mesmo um furaco exigente, estafante para os atletas.
     - Ainda mais com voc, Magr! - tinha se explicado no avio a professora, enquanto as duas viajavam para os Estados Unidos, onde a menina era a nica brasileira 
inscrita para disputar o Campeonato Mundial de Ginstica Olmpica. - Nunca tive uma atleta como voc. Voc vai ganhar essa competio. Voc tem de ganhar! No ano 
que vem so as Olimpadas. E eu tenho certeza que a medalha de ouro tambm ser nossa! Quer dizer, sua... quer dizer, nossa mesmo, de todos os brasileiros!
     Magr lembrava-se dessas palavras de dona Iolanda, mesmo porque a professora a pressionava tanto nos treinamentos que ela no podia esquecer-se nem por um momento 
do que viera fazer em Nova Iorque: vencer o Campeonato Mundial de Ginstica Olmpica, competindo com as melhores atletas do mundo.
     - Vai ser difcil, dona Iolanda. Como vou poder disputar com aquelas meninas? Principalmente contra aquela miudinha da Ucrnia... Ela  uma pluma. Vai voar 
sobre a quadra!
     - Ora, ora, ora, Magr! - cortou a professora, confiante. Voc foi arrasadora nas trs provas at agora. Sua nota foi nove e noventa e nove no salto sobre o 
cavalo, nove e noventa e oito na trave e dez nas barras paralelas! Daqui a dois dias vai ser a ltima prova: a ginstica de solo. Se voc estiver concentrada, a 
vitria est no papo! Vamos l: caf e ducha. Volto em quinze minutos. Vamos, vamos, vamos!
     Deixou a bandeja sobre a mesa e saiu. Um furaco.
     Magr tomou apenas dois goles do suco de laranja. Deixou cair a camisolinha no meio do quarto e correu nua para o chuveiro.
     

     
     
     
    2. A DROGA DO AMOR
     
     Eram oito horas da manh quando Miguel levantou-se da mesa do caf.
     O ano terminava, mas o rapaz no queria descanso. Tinha de manter-se ocupado, preparando a nova vida que, a partir de agora, estava decidido a levar. Inscrevera-se 
como monitor de uma colnia de frias para crianas e, naquela manh, aprontava-se para uma reunio em que os monitores receberiam treinamento para a primeira temporada.
     Sobre a mesa, passou os olhos pelas manchetes do jornal.
     A DROGA DO AMOR VEM AO BRASIL
     Dava orgulho: o Brasil tinha sido escolhido para sediar a parte final do mais importante projeto cientfico do mundo. Conhecido laboratrio multinacional estava 
s vsperas de descobrir a cura para a praga do sculo. O soro j demonstrara ser cem por cento eficiente nos testes in vitro e j fora testado em seres humanos 
sadios para que se verificasse se apresentava algum grau de intolerncia no organismo humano. Tudo estava perfeito. O prximo passo seria o experimento com seres 
humanos infectados. Dos inmeros pases que tinham apresentado grupos de pacientes terminais voluntrios para a experimentao, o escolhido tinha sido o Brasil. 
O chefe da equpe de cientistas desembarcaria brevemente em So Paulo.
     A cura para a praga do sculo era a melhor notcia que o mundo poderia esperar. O Brasil estava nas manchetes e um jornalista criativo inventara o apelido "Droga 
do Amor" para o soro experimental, porque, se desse certo, aquela droga libertaria realmente o amor da morte.
     "Droga do Amor! Amor tem a ver com vida, no pode trazer a morte junto...", pensou o rapaz. "Que nome bem achado!" Lembrou-se destas palavras do seu professor 
de biologia: "Amor  vida, no  morte! Amor produz vida, traz a felcdade, move o mundo, no pode destru-lo!"
     Empolgado, esperanoso, ele contara aos alunos que muitas doenas que vitimavam os amantes no passado j tinham sido vencidas pela cinca e que essa tambm 
seria derrotada.
     Mas, ao entrar no chuveiro, o fim da praga do sculo no ocupava mais os pensamentos do ex-lder dos Karas. Como um pesadelo do qual o rapazinho no conseguia 
desfazer-se, veio-lhe  lembrana a ltma reunio dos Karas e a dolorida lembrana de Magr.
     "Ah, Magr, Magr, Magr... Como eu vou conseguir viver sem voc ao meu lado? Voc est em Nova Iorque... Quando voltar, ser que vai compreender o que eu fiz? 
Vai entender por que eu fiz o que fiz?"
     Ele tivera de agir antes que Magr voltasse. Viver perto de Magr, sem ter Magr, para ele seria o fim. E ele sabia que o mesmo aconteca com Crnio, o mesmo 
acontecia com Cal.
     Miguel lembrou-se de sua deciso. No poderia ferir seus melhores amigos. No poderia suportar a idia de ver Cal e Crnio como rivais. O jeito tinha sido 
sair da jogada e nunca mais ver nenhum deles.
     O jeito tinha sido dissolver o grupo dos Karas. E nunca mais ver Magr...
     O suave cheiro do sabonete lembrou-lhe o perfume do corpinho da nica garota do grupo dos Karas.
     
     ***
     
     Um gostoso perfume de banho, de sabonete e de xampu envolveu o ambiente quando Magr voltou ao quarto, enxugando-se.
     O inverno nova-iorquino no entrava no apartamento muito bem aquecido do hotel, e o vapor do banho quente tornava tudo ainda mais aconchegante.
     Na frente do espelho, acariciando lentamente os longos cabelos com a toalha felpuda, Magr examinou-se.
     "Bom, eu no engordei, mas j estou grande demais para a ginstica olmpica... Aquela ucraniana  uma anzinha! E a azerbaijana? Parece um pssaro! Tem tambm 
a americana que... Ah, mas eu no posso decepcionar dona Iolanda..."
     Ainda nua, Magr sentia-se sensual, quentinha do banho, com um pouco de preguia. Examinou-se. Imaginou-se. Lembrou-se dos Karas. Dos seus queridos Karas...
     Ao lado, estava a bandeja do breakfast, abandonada. Caf, leite, chocolate, ovos fritos e bacon, tudo j frio. Havia grapefruit e quatro pequenas bananas, as 
"chiquitas", muito raras e muito caras nos Estados Unidos. Uma delas muito pequena mesmo.
     "Essa  o Chumbinho", pensou, rindo, ao lembrar-se do querido caula dos Karas.
     Mas os outros trs... Miguel, Cal e Crnio. Ah, os trs Karas! Os seus trs Karas! Que saudades!
     A ponta do seu dedinho tocou delicadamente cada uma das trs bananas maiores.
     "Qual deles? Ai, qual deles? Os trs so to... so to... Eu devo decidir? Escolher? Como escolher? Crnio, ele  to. . . Ai, Crnio! Mas Miguel... se no 
fosse ele, eu... E Cal? Ai, como voc  lindo, Cal! Todos os trs me querem, eu sei que me querem... Hummmm... eu queria agora sentir perto de mim este aqui...
     Magr escolheu uma das bananas e, devagar, nua no meio do quarto, comeou a descasc-la.
     
     ***
     
     Cal espremeu o tubo de pasta de dentes, estendendo a minhoquinha branca sobre a escova. Levantou as olhos e encarou-se no espelho. A briga que dissolvera os 
Karas pesava demais.
     "Mas foi melhor assim... Eu no agentava mais." Lembrou-se da reunio. A ltima reunio, no esconderijo secreto do grupo dos Karas, o forro do vestirio do 
Colgio Elite.
     Tudo deveria estar resolvido depois da briga. Mas, no fundo de sua alma, Cal sentia que nada estava resolvido.
     "Os Karas no existem mais! E eu... ai, Magr! Eu ainda no agento..."
     Cal fechou os olhos, como se, dentro das prprias plpebras, estivesse vendo aquele rostinho:
     "Eu amo voc, Magr... desesperadamente..."
     L estava ele, no espelho, ouvindo suas prpras confisses. "Como posso manter o equilbrio perto dela? A gente vive se metendo nas maiores confuses, enfrentando 
perigos, e ela sempre al, corajosa, alegre, carinhosa com todos ns, e eu..."
     Seu rosto bonito refletia-se no espelho. Aquele rosto que derretia tantas garotas. Cal era um ator. Teatro, comerciais de televiso... as meninas o reconheciam 
a toda hora, olhavam para ele como se fosse algum deus do Olimpo. No o enxergavam como pessoa, como gente. Tantas garotas que o cercavam, insinuando-se, cada urna 
querendo ficar com ele, pelo menos uma vez...
     "Ficar? Ficar! Ficar com Magr? Ah, com Magr eu quero ficar, ser, estar, permanecer, parecer, continuar! Viver com ela! No d pra viver sem ela!"
     Cal sentia-se s, mesmo sabendo que qualquer garota do Colgo Elite daria tudo para ficar com ele.
     "Ficar com quem? Com o semideus que elas imaginam, que elas idealizam, mas que no sou eu? Ou ficar comigo, com a pessoa que eu sou, um ser humano, algum de 
carne, osso e sangue, que tem seus momentos de fragilidade, que quer carinho, que tem carinho para dar? Elas s querem o dolo... Mas Magr  diferente. Ela sabe 
quem eu sou. Ela me conhece. S ela poderia me compreender... Me acolher, como eu sou... Mas ela... Ah, Magr!"
     Uma lgrima quente, doda, escorreu pelo rosto do ator dos Karas.
     
     ***
     
     A gaitinha estava muda. Crnio soprava-a to delicadamente, que a msica s acontecia dentro do seu esprito.
     Deitado na cama, no conseguia deixar de repassar na memria a ltima reunio dos Karas. Crnio tinha chegado bem antes da hora marcada e subira ao forro do 
vestirio do Colgio Elite, sozinho.
     Para pensar. Pensar em Magr. Pensar na saudade que sentia. E para concluir. Concluir que nada mais havia a fazer. A sensibilidade do gnio dos Karas lia na 
expresso de Miguel, na expresso de Cal, o mesmo fogo que ele sentia queimar-lhe por dentro. E aqueles dois queridos amigos eram as duas ltimas pessoas no mundo 
de quem ele gostaria de ter cimes.
     Mas, como poderia suportar a idia de Magr ser de outro? Ainda que fosse de um daqueles dois amigos, mais queridos do que irmos. Cal e Miguel! Sorriu amarelo, 
ao imaginar que pelo menos Chumbinho estaria fora. Chumbinho era ainda muito novo. Para ele, Magr era apenas uma querida irm mais velha.
     "Magr'! Voc ama a humanidade, ama Miguel, ama Chumbinho, ama Cal e sei que voc me ama. Voc daria a vida por qualquer um de ns. Mas, quanto a mim... Quanto 
a mim, ah! Voc demonstra um carinho que... sei l!  muito, mas no parece nem um pouquinho maior do que o carinho que voc dedica a Miguel, a Cal ou a Chumbinho..."
     Lembrou-se do que pensara antes daquela reunio decisiva: "No agento! No agento mais! Tenho de acabar com tudo isso! Com tudo isso!"
     Mas, agora, depois da reunio, depois que ele tinha agido para "acabar com tudo isso", a soluo amargava-lhe a alma. "Magr..."
     Crnio derramou suas lgrimas interiores na msica muda que seu esprito compunha ao soprar inaudivelmente a gaitinha.
     

     
     
     
    3. A FUGA DO PIOR DOS BANDIDOS
     
     Miguel montou na bicicleta e comeou a pedalar lentamente, saindo do porto da garagem para a rua. O local em que seriam feitos os treinos para monitor de acampamento 
era meio longe. Talvez meia hora de bicicleta.
     "Cuidar da crianada! Ufa! Um monte de moleques mimados, cheios de vontades... Bom, preciso me ocupar nessas frias, seno vou ficar maluco!"
     Pedalou sem vontade. Naquela marchinha, levaria uma hora para chegar. Pensava na discusso furiosa que o tinha levado quela deciso. A pior deciso de sua 
vida... Mas a nica que ele poderia tomar.
     Uma deciso que tinha significado o fim do grupo dos Karas. A discusso... Miguel no se lembrava direito de como aqueles minutos horrveis tinham comeado. 
Mas se lembrava perfeitamente de que, na hora, percebera que aquela era a sua oportunidade de acabar com tudo, de afastar para sempre o problema que o enlouquecia.
     "Magr... Como eu poderia disputar voc com Cal? O menino mais bonito do Colgio Elite, o atorzinho paquerado por todas as meninas... E com Crnio? O aluno 
mais inteligente da histria do colgio? Ah, que os dois briguem por Magr. Eu no posso.. "
     A briga comeara com Cal, quase uma briga mesmo, quase... E Crnio? Entrara na discusso como um incendirio, botando lenha na fogueira, dizendo coisas que... 
E Chumbinho! Ah, pobre Chumbinho! Como poderia ele entender o que aconteceu?
     
     ***
     
     - Detetive Andrade!  com o senhor...
     O gordo detetive pegou o fone estendido pelo guarda. 
     - Quem ?
     -  o diretor da Penitenciria Estadual de Segurana Mxima.
     Andrade nem pde iniciar os cumprimentos de praxe que o telefonema de um diretor de penitenciria merecia. Foi interrompido antes de completar "boa tarde".
     Apenas ouviu. E o que ouviu deixou-o gelado. 
     - Ele... ele conseguiu fugir?!
     
     ***
     
     O ano estava no fim. S compareciam ao Elite os alunos que tinham provas de recuperao. No eram muitos, pois o Elite era um colgio especial, para estudantes 
tambm muito especiais.
     Convocado para aquela que seria a ltima reunio dos Karas, Cal caminhou apressado para o vestirio. Suas notas j estavam fechadas muito antes, e quem o encontrasse 
no colgio o veria apenas como o diretor teatral do grmio estudantil.
     Sumiu no quartinho das vassouras e, gil como um trapezista, pulou para o alapo, desaparecendo na vastido do forro, protegido de todas as vistas e de todos 
os ouvidos.
     Crnio e Chumbinho j estavam sentados no forro, esperando. Magr no viria. Estava nos Estados Unidos, para o Campeonato Mundial de Ginstica Olmpica.
     Iluminados apenas pelas poucas telhas de vidro, que deixavam entrar um pouco de luz natural no forro, os trs sentavam-se como budas,  espera de Miguel.
     
     ***
     
     O detetive Andrade desligou o telefone, sem acreditar no que acabara de ouvir.
     Seria um desastre para a sociedade se qualquer um dos prisioneiros, que eram fechados a sete chaves na Penitenciria de Segurana Mxima, conseguisse fugir. 
E, de todas aquelas feras humanas, um era o mais perigoso. Porque era o mais inteligente. E o mais amoral.
     Andrade sabia. Tinha prendido aquele monstro inteligente, educado, culto, frio como uma navalha. Algum para quem o crime era a razo de sua vida. Algum que 
jamais tivera razes sociais, de pobreza ou ignorncia, para escolher o crime. Aquele homem nascera com o crime no sangue. Ele era o mal.
     Sua ao devastadora pretendia apenas o poder. Considerava lcito usar jovens como cobaias, seqestrar e assassinar, no seu sonho louco de controlar as vontades. 
O detetive, com a ajuda dos seus queridos meninos, conseguira prend-lo, pondo fim ao rumoroso caso da Droga da Obedincia.
     E, agora, o Doutor Q.I. desaparecera da Penitenciria de Segurana Mxima!
     Ningum estaria seguro com aquele homem  solta.
     E os seus meninos? Sim, porque Andrade considerava Magr, Chumbinho, Miguel, Cal e Crnio como os seus meninos. Aquele monstro haveria de querer vingar-se, 
pois eles tinham sido os verdadeiros responsveis pelo fim de sua carreira de crimes.
     O Doutor Q.I.! Maldito! Em liberdade, aquele criminoso nunca descansaria at vingar-se dos meninos!
     No! Isso ele jamais permitiria. Os seus meninos nem ficariam sabendo da fuga do Doutor Q.I. Andrade o prenderia de novo, antes mesmo que a imprensa descobrisse 
aquele desastre. No importava o que custasse.
     - Eu juro! Eu vou pegar esse canalha de novo! - falava sozinho, enxugando o suor da careca com o leno. - Meus meninos no podem correr perigo!
     

     
     
     
    4. O FIM DOS KARAS
     
     Enquanto estacionava a bicicleta em frente  sede da empresa que organizava acampamentos de frias, o ex-lder dos Karas repassava a ltima reunio secreta 
com seus companheiros.
     E toda a dor daquele momento voltou a apunhalar-lhe o peito.
     
     ***
     
     Irrequieto como sempre, com carinha alegre, excitado, Chumbinho antevia mais uma ao perigosa, mas divertidssima:
     - Ei, Karas, o que ser que Miguel quer, hein? Por que essa reunio de emergncia mxima?
     - No sei, Chumbinho.
     - Uma emergncia mxima sem a Magr? Logo agora que ela est nos Estados Unidos!
     -  melhor esperar - encerrou Crnio. - J vamos saber. Pelo alapo, Miguel surgiu naquele momento.
     Chumbinho tremia, antecipando a emoo. Para ele, todas as aventuras arriscadssimas em que os Karas haviam se envolvido j eram passado. Ele precisava de mais 
uma.
     Decidido, Miguel sentou-se, fechando a rodinha sob a luz que se coava pelas telhas de vidro.
     - Pessoal - comeou ele, sem usar a palavra "Karas" -, a junta diretora do Elite vai demitir a professora de ingls. Como presidente do grmio do colgio, vou 
abrir um abaixo-assinado para pedir que...
     Cal interrompeu:
     - E o que tm os Karas a ver com o seu maldito abaixo-assinado?
     Miguel continuou, ignorando a interrupo:
     - ...para pedir que a professora no seja demitida. Os Karas tm uma misso. Precisamos preparar os colegas, para que o abaixo-assinado tenha o maior nmero 
de assinaturas possvel.
     -  assim, ? - perguntou Cal, com deslavada ironia na voz.
     -  assim o qu?
     - Olhe aqui, Miguel, j estou cheio dessa sua mania de mandar. A gente no devia discutir o assunto primeiro? Descobrir por que a diretoria quer demitir a professora?
     - Olhe aqui voc, Cal! - Miguel falou com dureza, sem encarar o amigo. - O presidente do grmio do Colgio Elite sou eu e pronto. E eu sei que a professora 
de ingls...
     - Ah, ah! - cortou Cal. - Voc sabe tuuuudo mesmo! E ns no passamos de cretinos que estamos aqui para fazer o que voc manda, como carneirinhos! Belo grupo 
o nosso!
     Miguel percebeu na hora. Cal viera  reunio disposto a fazer exatamente o que Miguel queria fazer. Sua deciso tinha um adepto.
     - Ora, Cal, v se cala a boca! 
     Crnio pulou:
     - Que negcio  esse de "cala a boca"? Eu tambm j estou cheio desse seu nariz empinado! Cale a boca voc!
     Cal piorou o clima ainda mais:
     - No se meta na conversa, Crnio! Eu tambm j estou cheio desse seu arzinho de gnio, metido a saber mais que todo mundo!
     - Ah, ? E voc, com esse jeito de galzinho de novela? O que voc est pensando? Pensa que pode com uma garota de verdade s porque a mame acha voc o garotinho 
mais gostoso do mundo?
     - Olha aqui, Crnio! No bota a me no meio! 
     Chumbinho, de boca aberta, no conseguia entender o que estava acontecendo:
     - Ei, Karas! Que histria  essa? 
     Miguel entrou com tudo:
     - Karas, ah! Mas que besteira essa de "Karas"! No sei onde estava com a cabea quando inventei de criar essa maluquice! Isso  coisa de criana!
     Chumbinho pulou:
     - O qu?! Lutar contra o Doutor Q.I., contra a Mfia, contra os neonazistas, foi tudo coisa de criana?! Voc est querendo me gozar, Miguel?
     - Desculpe, Chumbinho, mas procure me entender. - Miguel escolhia cada palavra. No podia ferir aquele amigo. Aquele fantstico Chumbinho. - A gente tem de 
crescer um dia. No d mais para ficar brincando de detetive...
     - Brincando?! - Chumbinho perdeu a calma. - Eu te conheo, Miguel. O que est acontecendo, hein?
     Miguel levantou-se.
     - J me enchi, Chumbinho. Estou fora dos Karas.
     - Fora dos Karas?! O que voc est dizendo, Miguel? Voc no pode fazer isso! Ainda mais agora, que Magr no est no Brasil. O que ela vai pensar?
     O nome de Magr fez Miguel encarar um a um os trs amigos. 
     - Se vocs quiserem, que continuem com essa brincadeira. Eu estou fora!
     Cal levantou-se.
     - Antes de voc, caio eu fora dessa besteira!
     - Voc?! - riu-se Crnio. - Quem est fora sou eu!
     Miguel j estava prximo ao alapo.
     - Chega! No quero mais saber de nenhum de vocs. Acabou!
     A boca de Chumbinho abriu-se como se fosse engolir um ovo, mas, dessa vez, o menino dominou a raiva. Havia muito mais coisas no ar abafado daquele forro de 
vestirio do que tinha sido dito. E a inteligncia aguda do menino queria saber o que estava acontecendo de verdade.
     - Karas, vocs esto escondendo alguma coisa de mim. Isso no  leal! Ser que j no provei que...
     Miguel agarrou-lhe o brao. 
     - Chumbinho, voc...
     O menino desvencilhou-se com um tranco.
     - Eu no vou chorar, Miguel, pode ficar descansado! No sei o que est acontecendo, mas vou descobrir. No vou deixar o grupo dos Karas morrer!
     - Mas, Chumbinho...
     - Ainda tenho Magr. Quando ela voltar, ns dois vamos descobrir o que est acontecendo!
     Sem dizer mais nada, Miguel levantou-se e desapareceu pelo alapo.
     Chumbinho olhou suplicante para os dois amigos que restavam. Nenhum dos dois o encarou e, um a um, deixaram o forro do vestirio do Colgio Elite.
     Sozinho, Chumbinho cerrou os punhos e falou para as telhas, para as teias de aranha, para o p, para o vazio:
     - Eu no vou deixar o grupo dos Karas morrer! !
     

     
     
     
    5. GRUPO DE UM KARA S
     
     Chumbinho no sabia o que fazer, depois daquela reunio desastrosa.
     O fim dos Karas! Como ele iria admitir que o grupo dos Karas pudesse dissolver-se?
     Se Magr no estivesse viajando...
     Saiu do colgio, olhando para o cho, sem saber o que fazer.
     
     ***
     
     Magr j estava pronta para o treino quando bateram na porta do apartamento.
     "No deve ser dona Iolanda", pensou a menina, pois a professora entrava em seu quarto a qualquer hora, sem a menor cerimnia.
     Era um boy do hotel, uniformizado, trazendo um telegrama sobre uma bandejinha de prata.
     "Aposto que  de papai...", pensou a menina, abrindo o envelope, depois de dar uma gorjeta para o boy e fechar a porta.
     
     ***
     
     O velho fusquinha de Andrade encostou na calada e a voz amiga do detetive despertou o menino das preocupaes:
     - Ol, Chumbinho! Tudo bem? 
     - Detetive Andrade!
     Andrade... Aquele sim, era um amigo. O nico adulto que sabia o valor dos cinco Karas.
     O detetive enxugava a careca com um leno. Era sinal de preocupao, Chumbinho sabia muito bem. Mas a expresso do detetive procurava demonstrar tranqilidade.
     - Estava passando por aqui e resolvi ver como vo as coisas...
     - As coisas? Que coisas?
     - O pessoal... Como esto Miguel, Magr, Cal e Crnio? 
     - Magr est nos Estados Unidos, participando de um campeonato de ginstica olmpica. Os outros... bom, os outros parece que ficaram malucos..
     - Ficaram malucos? O que voc quer dizer com isso? 
     - Nada, Andrade. Brincadeira...
     O detetive fez uma pausa, sem saber como continuar. Chumbinho no ajudou em nada. Olhava o amigo, com sua melhor expresso de ingenuidade.
     - Mas est tudo bem mesmo?
     Andrade que se revelasse. Porque, que havia alguma coisa no ar, isso havia.
     - Est. Por que no haveria de estar?
     - Nada, Chumbinho. S estou perguntando... No apareceu ningum por aqui?
     - Sei l. Quem deveria aparecer?
     - Deveria? Ningum deveria. Hum... Estou falando assim, de um modo geral, porque vocs vivem se metendo em encrencas. Se alguma coisa estranha acontecer, eu 
quero que vocs me faam saber imediatamente.
     Os olhos de Chumbinho passaram por todo o interior do carro, em busca de alguma pista que justificasse o estranho comportamento do amigo detetive. No banco 
de trs, havia um grande envelope timbrado da Penitenciria Estadual de Segurana Mxima. Para completar o quadro, notou que o detetive esquecera de tirar um crach 
da lapela. E l tambm estava escrito o nome da penitenciria. Muito bem. Andrade estivera l, e de l viera direto para o Elite. Por qu?
     - Est bem, Andrade. Est tudo bem por aqui.
     Chumbinho disfarou, riu, mostrou-se "menino", para deixar Andrade mais  vontade e, de repente, com a carinha mais inocente do mundo, perguntou:
     - Puxa, Andrade! Estou me lembrando agora do Doutor Q.I. O que ser que ele anda pensando l, na Penitenciria de Segurana Mxima?
     - U... Quem lhe falou da Penitenciria de Segurana Mxima?
     -  l que est preso o Doutor Q.I., no ? 
     - O Doutor Q.I.? Est preso l? Nem sei...
     - Daquela penitenciria nunca ningum fugiu, no ?
     - Fugir de l? Ora, essa  boa! Nem as moscas conseguem sair daquela fortaleza de concreto e ao. Tudo eletrificado, computadorizado e automati-zado. Aquilo 
  prova de fuga. Nem pense que o Doutor Q.I. conseguiria fugir de l.
     - U... voc no disse que no sabia se o Doutor Q.I. estava ou no preso l?
     - E no sei mesmo! O que eu quis dizer  que, se ele estivesse, nunca conseguiria fugir! Aquilo  como um verdadeiro abrigo contra bomba atmica!
     Ento era isso! O detetive tentava esconder alguma coisa. Alguma coisa importante e que tinha que ver com os Karas. Seno, por que teria vindo ao Elite ainda 
com o crach e com um grande envelope da penitenciria no banco de trs do carro? O que conteria o envelope? A ficha do Doutor Q.I.?
     - Se o Doutor Q.I. fugisse da priso, voc nos contaria, no , Andrade?
     O gordo detetive agarrou o volante com raiva e ligou novamente o carro.
     - Chumbinho, no se preocupe. Ele no faria nada contra vocs. Eu juro que no faria. Eu estou de olho. Ele no conseguiria nem se aproximar de vocs!
     Andrade estava nervoso demais. "Faria", "conseguiria"... O menino estava certo de que no era para acreditar naqueles condicionais. O maldito Doutor Q.I. tinha 
fugido da priso, s podia ser isso! Andrade viera direto ao Elite porque havia perigo. Perigo de vingana contra os Karas.
     Quando Chumbinho viu o carro do detetive distanciar-se, j tinha resolvido o que fazer.
     "Preciso da Magr. Com o Doutor Q.I.  solta, os Karas esto em perigo."
     Em uma folha da sua agenda de bolso, rabiscou o telegrama em cdigo e correu para a agncia do correio.
     
     ***
     
     O telegrama no era do pai de Magr. Era um telegrama estranho, em uma lngua mais estranha ainda.
     Mas no para Magr. Estava em cdigo. Um cdigo que s os Karas conheciam. E que s era usado em ocasies de grande urgncia.
     Com seu olhar treinado, a menina traduziu o texto de cabea, na mesma hora. Era s aplicar primeiro o Cdigo Vermelho, substituindo AIS por A, ENTER por E, 
INIS por I, OMBER por O e UFTER por U.
     MIGS
     VENPO USGOLPO. KISIR OM TOSAGE
     CHUMBALHE
     O texto ainda no fazia qualquer sentido, mas Magr sabia que, em seguida, bastava usar o Cdigo Tenis-Polar, colocando a palavra "TENIS" sobre a palavra "POLAR", 
de modo que o T correspondesse ao P, o E ao O, o N ao L, o I ao A, o S ao R, e vice-versa.
     Pronto. L estava o texto do telegrama:
     MAGR VOLTE URGENTE. KARAS EM PERIGO
     CHUMBINHO
     
     ***
     
     Dona Iolanda estava quase chorando na hora do embarque. - Que azar, Magr! Voc foi se machucar quando faltavam s dois dias para a prova final! Ai, ai, ai! 
S pode ser praga. A culpa foi minha. Eu no devia ter forado tanto os treinamentos...
     - Que nada, dona Iolanda - consolava-a Magr, enquanto fingia manquitolar ao lado da professora, na fila de embarque do Aeroporto Kennedy. - Isso acontece. 
J estou muito grande para o triplo mortal de costas. Ca de mau jeito...
     - Sorte da ucraniana! Isso  praga de russo! Eu sabia que no se pode confiar nessa gente!
     Magr sentou-se na poltrona do avio e ajeitou cuidadosamente a perna enfaixada.
     - Est doendo? - perguntou dona Iolanda, ajudando-a a afivelar o cinto de segurana.
     - Um pouco... - fingiu Magr.
     O enorme jato decolou suavemente.
     Magr suspirou. Para ela no tinha sido fcil fingir a contuso no tornozelo. Ela tambm estava ansiosa para ganhar a medalha de ouro do Campeonato Mundial 
de Ginstica Olmpica dos Estados Unidos. Dedicava-se aos treinamentos h anos, lutando por aquela oportunidade. Mas o telegrama de Chumbinho era mais importante 
do que qualquer competio.
     "Bom, ainda tenho as Olimpadas, no ano que vem.. "
     A urgncia declarada no telegrama no poderia esperar os dois dias que faltavam para a prova final de ginstica de solo. Os Karas estavam em perigo. E os Karas, 
para Magr, estavam acima de todas as medalhas de ouro. A ginstica olmpica era sua realizao, mas os Karas eram a sua vida.
     Voltou-lhe  lembrana um rapaz especial entre os Karas. "Ser que alguma coisa aconteceu a ele? Por ele, eu abandonaria at as Olimpadas!", pensava a menina, 
olhando para as nuvens pelo lado de cima, que sempre lhe tinham parecido como um campo nevado, fofo, onde seria maravilhoso mergulhar. "Mergulhar com ele..."
     

     
     
     
    6. SOBRE AS NUVENS
     
     Crnio mergulhou nos estudos. Fsica, computao, problemas de xadrez tornaram-se para ele no um modo de aprender, mas de esquecer. Esquecer os Karas, esquecer 
Magr...
     Era noite. Tarde. Montou no tabuleiro um problema de xadrez. O rei negro leva mate frente  dama branca. Em trs lances. "Os trs lances j foram jogados, Magri... 
O re j caiu. .."
     
     ***
     
     Dona Iolanda dormia placidamente na poltrona do avio, depois da refeio servida pelas comissrias de bordo.
     Ao lado da professora, sentada na poltrona do corredor, Magr tirou os fones de ouvido e ficou olhando, desinteressada, o filme que era exibido a bordo do avio. 
Um filme agora mudo como uma comdia antiga. Uma comdia triste de Chaplin...
     Atrs do bigodinho, Magr imaginava uma carinha especial. Um "Karinha" especial. .. O seu Kara. Seu? Como ele poderia ser seu? Como ela poderia ser dele? E 
os outros dois? Ai, o que fazer?
     Levantou-se da poltrona, sentindo os msculos dormentes pela longa permanncia no avio e pelo esforo em fingir a contuso no tornozelo.
     Toda a cabine estava s escuras.
     
     ***
     
     "Preciso relaxar, dormir. Amanh eu tenho ensaio... preciso dormir... dormir... Dormir, talvez sonhar... e, nesse sonho, sonhar que tudo est acabado, tudo 
resolvido... Magr esquecida... Aaaahhh! Esquecida! Que piada! No, no, no! No  o Hamlet que eu vou fazer. Vou fazer o Folial... de 'O Escorial'... Michel de 
Ghelderode... um belga... Ainda no sei as falas do Folial de cor... O rei diz: Tantas flores, tantas flores... E eu soluarei por causa das flores... pela minha 
querida rainhazinha... Magr... hn, hn, hn... Chorarei como tu haverias de chorar por mim, querida rainhazinha, se a morte se houvesse enganado de quarto... Tem 
graa! E ningum foi testemunha de minhas lgrimas. Ei, Folial! Bufo maldito que no viste chorar teu rei! Folial, meus ces te devoraram, carne cmica?' hn, hn, 
hn... 'Vossos ces so os ces do rei, senhor. Devorariam vossos cortesos, no vossos valetes...' Ai, e depois? Qual  a prxima fala? hn, hn, hn... 'Blasfemador! 
Aquela que agoniza  bela, pura e santa! Morre por causa do silncio e das trevas deste palcio, cujas paredes tm olhos, e cujos sales de festa ocultam armadilhas 
e instrumentos de tortura! Morre porque viveu entre seres sinistros, longe do sol, seqestrada e estranha. Morre, rainha sem povo, de um reino que goteja sangue, 
onde reinam espies e inquisidores.' hn, hn, hn... 'Digo-vos que a morte  uma benfeitora, cuja chegada desejei, como vs a desejastes. E ela se apresentou imediatamente, 
pois nunca anda muito longe daqui, cujo domnio ela reparte com a loucura!...' Magr... hn, hn, hn... 'Minha coroa! Eu sou o rei! A rainha morreu... Anuncio ao 
rei que a rainha morreu...' Ai, Magr, minha rainha... Vem, Magr... Est escuro, Magr... No consigo dormir... hn, hn, hn... Ai, Magr..."
     
     ***
     
     Magr andou ao longo do corredor do avio. A maioria dos passageiros dormia.
     Perto dos toaletes, dois homens conversavam em ingls. 
     - I wonder how that country is... - dizia o mais velho. 
     - It's really hot... - informou o outro.
     - I hate the heat. Oh, how I hate the heat!
     - Well, there are beautiful women down there. And beautiful beaches...
     - I'm a city man. I hate beaches. I don't like the sand and all those dirty things. I'd rather see beautiful bitche's...
     - Well, forget all about that. Our job is what matter. Are you completely prepared?
     - I think so. But I don't know if we rehearsed enough...
     - You know all you need to know. Everything will be fine... - encerrou o mais moo, encolhendo-se na poltrona, para dormir. Magr voltou para sua poltrona, 
sorrindo consigo mesma: "Esses americanos! Por que vm para o Brasil, se odeiam praia? Se no gostam de calor? Devem ser atores, ou msicos... Falaram em ensaiar 
pouco... Ah, msicos de rock  que no so. So velhos demais para o rock!"
     Sentou-se novamente ao lado da professora, adormecida.
     O filme era mesmo muito chato. Acendeu a luzinha individual e tentou ler, mas, com o zumbido dos motores e com a monotonia da viagem, acabou adormecendo. Mais 
uma vez para sonhar com um Kara especial...
     
     ***
     
     Chumbinho acordou cedo.
     A casa ainda dormia quando o menino saiu. Pegou um txi especial.
     - Para Cumbica, por favor. O motorista sorriu. "Corrida boa..."
     No bolso de Chumbinho estava o telegrama que Magr enviara em seguida ao recebimento do seu. Dessa vez, no tinha sido necessrio usar nenhum cdigo. O telegrama 
dizia apenas o horrio do pouso em Cumbica do avio em que Magr voltaria dos Estados Unidos.
     "Vou chegar ao aeroporto antes de Magr passar pela alfndega...", pensava o menino.
     
     ***
     
     Acordou com a voz excitada de dona Iolanda:
     - Ai, Magr! Voc nem imagina quem est no avio, junto com a gente!
     - Hum?
     Dona Iolanda estava animadssima:
     - Voc j ouviu falar na Droga do Amor? J ouviu?
     - S-sim... - respondeu a menina, esfregando os olhos. - E voc sabia que o teste final da Droga do Amor vai ser feito no Brasil? Hein? No Brasil? - a professora 
fez uma expresso superior, de quem descobriu algo muito importante. - Pois as amostras do soro e os cientistas criadores da Droga do Amor esto voando para o Brasil 
neste avio!
     -  mesmo? Onde esto eles?
     - Acabei de saber por uma reprter que est viajando conosco. So aqueles dois, ali!
     Magr seguiu a direo do dedo apontado pela professora. De p, no corredor, aceitando com prazer a bajulao e o interesse jornalstico da tal reprter, estavam 
os dois americanos que Magr ouvira conversando naquela noite.
     - Esses so os dois salvadores da humanidade, Magr! Venha. Vamos pedir um autgrafo!
     - Ah, dona Iolanda! Deixa isso pra l...
     Mas a professora j tinha tirado uma agenda e uma caneta da bolsa e corria pelo corredor, em direo aos dois cientistas. Magr pensou que, se os testes da 
Droga do Amor no Brasil dessem certo, aqueles dois americanos ganhariam o Prmio Nobel, sem a menor dvida. Da, o autgrafo conseguido por dona Iolanda valeria 
uma fortuna...
     A professora estendia a agenda e a caneta para o mais velho dos dois americanos. Surpreso, o homem pegou a agenda e rabiscou algo rapidamente, com um sorriso 
feliz.
     Aquele gesto despertou o avio. Outras pessoas aproximaram-se, estendendo tambm papis e canetas em direo aos cientistas e criando uma pequena confuso.
     O americano mais jovem, de cabelos negros e lisos, empurrou o companheiro de volta  poltrona da janelinha. Com uma expresso preocupada, sacudiu a mo em direo 
aos passageiros.
     - Please, no autographs, please...
     - O qu? - perguntou uma senhora gorda que, pelo jeito, no falava nada de ingls.
     - Sem autgrafo, por favor... - traduziu o homem, educadamente.
     "Hum... um deles fala portugus!", pensou Magr.
     
     ***
     
     Um instrutor experiente discorria sobre as obrigaes que os monitores teriam durante o acampamento.
     - Todo cuidado  pouco, pessoal. Teremos crianas a partir de quatro anos e no queremos nenhum acidente.
     Miguel esforava-se para prestar ateno s instrues. Mas, por dentro, sua mente escapava para as aventuras que poderia estar vivendo com os Karas...
     "Ah, os Karas no existem mais! Preciso me concentrar. Crnio, Cal e Chumbinho so passado. Magr  passado! Ai, Magr.. ."
     Um intervalo. Os candidatos a monitor espalharam-se pela casa, conversando. Sobre a mesa do instrutor, Miguel encontrou o mesmo jornal que vira naquela manh. 
Sem vontade de conversar com ningum, passou a folhe-lo. A vinda dos cientistas americanos para o Brasil era o assunto principal. Eles desembarcaram naquela manh 
em Cumbica.
     Olhou o relgio. Os cientistas, trazendo a Droga do Amor, deveriam estar desembarcando naquele momento.
     

     
     
     
    7. SEQESTRO EM CUMBICA
     
     Em frente das portas de vidro que davam para o saguo de desembarque do Aeroporto Internacional de Cumbica, parentes  espera de viajantes e funcionrios de 
empresas portando tabuletinhas com nomes de passageiros formavam um aglomerado ansioso.
     Chumbinho estava na primeira linha da multido, apertado contra os balastres que formavam um corredor a partir das portas de vidro.
     Na tabuletinha de um grupo de engravatados, Chumbinho leu: "Drug Enforcement Inc. - Dr. Bartholomew Flanagan". 
     "Que sorte!", pensou o menno. "O criador da Droga do Amor vem justo no avio da Magr!"
     Os primeiros passageiros comeavam a despontar.
     - Magr! - gritou Chumbinho, ao ver a amiga manquitolando apoiada no ombro de dona Iolanda, que empurrava o carrinho de bagagens.
     - Chumbinho! - respondeu Magr, logo que viu o amigo. Fingindo andar com dificuldade, Magr foi sendo ultrapassada por outros passageiros.
     Chumbinho viu dois homens de terno passarem pela amiga. O mais novo acenou ao ver o grupo de engravatados e puxou o companheiro na direo da tabuleta em que 
estava escrito "Drug Enforcement Inc."
     Quando Magr e dona Iolanda j estavam perto de Chumbinho, a professora gritou:
     - Ei! O que est acontecendo?
     Magr seguiu o olhar espantado de dona Iolanda.
     Foi tudo muito rpido, profissional. Todos os engravatados sacavam armas e quatro deles agarravam os dois recm-chegados. 
     - Parem com isso! - gritou a professora.
     Um dos homens ergueu o brao e uma chama brilhou, enquanto um tiro ecoava sinistramente pela imensido do aeroporto. 
     - Dona Iolanda!
     Magr deixou cair a bolsa ao sentir a professora bambear abraada a ela.
     Chumbinho pulou sobre as duas, cobrindo-as com o corpo. Mas a proteo no era mais necessria. Um dos viajantes de terno estava sendo arrastado para longe 
e o outro j estava cado, depois de levar violenta coronhada.
     Pnico no aeroporto. Gritos, desmaios, bagagens caindo no cho, e a multido, ao espalhar-se, comprimiu os dois Karas que amparavam dona Iolanda.
     - Abram! Dem espao! - gritou Chumbinho. - Tem uma pessoa baleada aqui!
     Gritos e confuso mudaram de rumo, e os trs viram-se repentinamente no meio de uma roda.
     Um Kara treinado nunca deixa escapar nada, mesmo nas situaes mais terrveis. E Chumbinho notou que a bolsa que Magr deixara cair, ao amparar a professora, 
tinha desaparecido.
     Com o corpo largado, dona Iolanda sangrava nos braos de Magr.
     
     ***
     
     Cal estava saindo do banho quando ouviu a notcia pelo rdio: "Seqestro em pleno Aeroporto Internacional de Cumbica!
     O famoso cientista americano, doutor Bartholomew Flanagan, criador da Droga do Amor, foi levado em minutos por um grupo de homens, quando chegava ao saguo 
do aeroporto, vindo de Nova Iorque. At o momento, no h pistas dos seqestradores. O doutor Hector Morales, presidente para a Amrica Latina da Drug Enforcement 
Inc., que o acompanhava, foi ferido por uma coronhada. Mas o servio mdico do aeroporto j o atendeu e ele se encontra ainda l, auxiliando nas investigaes. Nossa 
reportagem descobriu que uma mulher, ainda no identificada, foi ferida a bala durante o seqestro. Os doutores Flanagan e Morales chegavam ao Brasil para os to 
esperados testes finais da Droga do Amor, o soro contra a praga do sculo, que poder ser a esperana de tantos pacientes terminais em todo o mundo. E ateno: diretamente 
do Aeroporto Internacional de Cumbica, fala a nossa reprter Abigail Cintra. Pode falar Bibi!"
     "Bom dia, Marcos Antnio. Acabamos de receber a notcia que a caixa com as amostras do soro da Droga do Amor que seriam usadas nos testes no Brasil foi tambm 
levada pelos seqestradores. Acredita-se que se trata de um plano internacional, provavelmente liderado pela Mfia. No comando das investigaes est o detetive 
Andrade, mas, at o momento, nossa reportagem no teve acesso  sala onde se encontra o doutor Hector Morales, que nesse momento est conversando com os policiais. 
A diretoria da Drug Enforcement vai distribuir um comunicado  imprensa nas prximas horas...
     
     ***
     
     - Cuidado com ela!
     Os maqueiros j estavam tomando todo o cuidado que Magr exigia, aos berros, enquanto transportavam dona Iolanda, desfalecida, para dentro da ambulncia. Um 
enfermeiro erguia um frasco com soro, j ligado  veia de um dos braos da professora.
     Como abutres farejando carnia, os reprteres, sempre enfiando microfones em busca de alguma declarao, prejudicavam o trabalho da equipe mdica.
     - As cmeras! - ordenava um. - Mande vir logo as cmeras. No podemos perder essas imagens!
     Prximos ao tumulto, dois homens muito discretos, de terno escuro, quase gmeos, conversavam baixinho, observando a cena apenas com o canto dos olhos.
     Chumbinho e Magr no tinham desgrudado um segundo de dona Iolanda. Os dois estavam manchados com o sangue da professora e os reprteres ansiosamente procuravam 
entrevist-los.
     - Filmem esses meninos sujos de sangue! Vamos logo! Vai dar um lindo visual na tev.
     Magr no largava da mo de dona Iolanda, que tinha o tronco totalmente enfaixado. E a gaze j estava vermelha.
     - Afastem esses reprteres! - gritou um policial. - Fechem logo a porta da ambulncia!
     - Eu vou tambm! Ela  minha professora. Viajamos juntas! 
     - Vai nada, menina! - decidiu o policial. - Voc  testemunha. Voc e esse rapazinho!
     - Me deixe!
     - Venha quietinha. Sua professora vai ser muito bem cuidada. O estado dela ser informado por telefone ao chefe das investigaes, no se preocupe. Venha, vamos 
para a sala da Polcia Federal. Ei, enfaixaram seu tornozelo? Voc tambm foi baleada?
     - Isso no  nada. J desembarquei assim.
     Segurando os dois Karas, o policial abriu caminho no meio dos reprteres.
     Mantendo uma certa distncia, os dois homens de terno escuro seguiram discretamente na mesma direo.
     A ambulncia partiu com a sirene aberta.
     Caminhando pelo saguo, Magr percebeu que estava com a bolsa de dona Iolanda. Onde estava a sua? Bem, se tivesse sumido, isso no tinha grande importncia. 
Ali s havia dinheiro e produtos de maquilagem. Seu passaporte e outros documentos estavam na mochila, junto com as bagagens.
     Seus olhos se apertaram, pensando na professora: 
     - Ser que ela vai viver, Chumbinho?
     

     
     
     
    8. BRINCANDO COM A MORTE
     
     Para um caso grave como aquele, o Esquadro Anti-seqestro estava sob as ordens da Polcia Federal. E todos estavam sob o comando do detetive Andrade, nacionalmente 
famoso depois de tantos casos difceis brilhantemente resolvidos, como o da Droga da Obedincia, da Mfia no Pantanal e do ressurgimento dos neonazistas.
     Quando o policial, trazendo os dois Karas, abriu a porta da sala da Polcia Federal no Aeroporto de Cumbica, l estava o detetive Andrade, andando de um lado 
para o outro e enxugando com um leno a careca suada, apesar da temperatura perfeitamente climatizada. O famoso detetive voltou-se, surpreso:
     - Magr! Chumbinho! O que vocs esto fazendo aqui?
     - Esses dois so as testemunhas que estavam com a mulher baleada - informou o policial, ainda segurando os dois Karas sujos de sangue. - O senhor j conhecia 
esses meninos?
     -  claro que sim! Raios! Que mania vocs tm de se meter em tudo! O que houve? Quanto sangue! Vocs esto feridos? O que  isso no tornozelo, Magr?
     Como um pai preocupado, abraou Magr e Chumbinho e ouviu ansiosamente o relato do que os dois tinham presenciado. 
     - Mas por que ser que os bandidos s atiraram nessa sua professora, dona Iolanda?
     - No sei, Andrade - respondeu Magr. - Vai ver foi porque ela gritou...
     Os dois Karas sentaram-se e Magr tratou de tirar as bandagens que envolviam seu tornozelo, falsamente destroncado. Agora no havia mais necessidade de fingir.
     Andrade andava novamente a esmo, enxugando a careca. 
     - Eu no entendo! Por que haveriam de seqestrar o doutor Bartholomew Flanagan? Por que roubar as amostras da Droga do Amor? De que vale isso para esses bandidos? 
No prximo avio, a Drug Enforcement pode enviar outra caixa com novas amostras!
     - Um momento, detetive...
     Sentado em uma cadeira, j com um belo curativo na testa, quem falou, em um portugus perfeito, com um leve sotaque, foi o americano ferido pela coronhada.
     - Por favor, no estranhe que eu fale a sua lngua. Sou Hector Morales, presidente para a Amrica Latina da Drug Enforcement Inc. Minha funo exige que eu 
domine perfeitamente o portugus e o espanhol. Sou americano, de origem portoriquenha e...
     - E o qu, doutor Morales? - Andrade estava impaciente. - Vamos cortar as apresentaes. Pode me dizer qual o lucro que esses bandidos esperam ter, seqestrando 
o doutor Bartholomew Flanagan e roubando as amostras da Droga do Amor? O que eles querem? Pedir um resgate pelo cientista?
     Hector Morales era um homem extremamente educado. Seus cabelos, apesar do curativo, j estavam novamente penteados para trs, em perfeita ordem, negros, lisos 
e brilhantes, o n da gravata novamente impecvel e a tranqilidade recuperada.
     - Detetive...?
     - Andrade. Detetive Andrade.
     - Detetive Andrade, o que acaba de acontecer tem uma gravidade muito maior do que o senhor est pensando.
     - Mais grave? O que pode ser mais grave do que...
     - Um momento, deixe-me continuar. O projeto do soro que vocs, aqui no Brasil, batizaram de "Droga do Amor", alis um nome muito criativo,  extremamente secreto. 
A Drug Enforcement teve de adotar todas as providncias para impedir que empresas concorrentes tomassem conhecimento do que estvamos pesquisando. O senhor sabe, 
detetive Andrade, como  srio o problema de espionagem industrial nos Estados Unidos, no ?
     - Continue, doutor Morales.
     - Nosso esquema de proteo s pesquisas foi o mais perfeito possvel. Decidimos que, quanto menor o nmero de pessoas que conhecesse a frmula do soro, maior 
seria nossa segurana na proteo do segredo. Desse modo, mesmo a numerosa equipe que criou a frmula no a conhecia em sua totalidade. Cada tcnico desenvolveu 
apenas a sua parte, sem conhecimento das outras fases. S o doutor Bartholomew Flanagan fazia a conexo entre os vrios departamentos e conhecia a frmula completa...
     - O qu?!
     - Para agravar o problema, detetive, a Drug Enforcement no tem outras amostras do soro. Por razes de segurana, s foram produzidas as amostras que estavam 
naquela caixa...
     - Horror! Ento isso quer dizer que.. .
     - Que, sem as amostras e sem a frmula que est na memria do doutor Bartholomew Flanagan, a Droga do Amor estar perdida!
     
     ***
     
     O seqestro do doutor Bartholomew Flanagan e o roubo da caixa com as amostras da Droga do Amor tinha sido o plano mais sinistro que Andrade j enfrentara.
     - Que horror! Que vergonha! Esses bandidos vo pedir uma fortuna para devolver a Droga do Amor! Malditos! Como algum pode jogar assim com a vida de milhes 
de seres humanos desenganados em todo o mundo? H milhes de pacientes terminais internados, ansiando por esse soro!  crueldade demais! Essa gente est brincando 
com a vida!
     - Eles esto brincando com a morte, Andrade... - corrigiu Magr.
     O doutor Hector Morales balanou a cabea:
     - A Drug Enforcement pode reunir todos os cientistas que trabalharam com o soro e tentar refazer a frmula. Porm, sem o gnio criativo do doutor Bartholomew 
Flanagan, vamos levar anos para chegar ao mesmo resultado. Talvez dcadas...
     - Bandidos!
     - Dcadas perdidas, bilhes de dlares em subvenes que recebemos de todo o mundo para desenvolver o soro tambm esto perdidos. Como reunir tudo o que precisamos 
para recuperar o que j havamos descoberto? Onde conseguir novamente todo esse dinheiro para retomar as pesquisas? Como recriar tudo o que estava na cabea do doutor 
Bartholomew Flanagan? Ah, isso  obra de uma organizao criminosa internacional, sem dvida...
     - A Drug Enforcementj recebeu algum pedido de resgate? 
     - Ainda no. Acabei de falar com a diretoria, h poucos minutos. Vamos aguardar.
     - Os bandidos, pelo jeito - raciocinou Andrade -, sabiam o que estavam fazendo ao seqestrar o doutor Flanagan e roubar as amostras da Droga do Amor. Posso 
concluir ento que houve ajuda de dentro da Drug Enforcement, no ?
     - Sim e no, detetive - respondeu o doutor Hector Morales. - A Drug Enforcement fazia questo de manter em segredo as pesquisas, mas no fazia questo de fazer 
segredo que fazia segredo.  nosso estilo de trabalho. Todo mundo sabe disso. O crime foi coisa de profissionais muito bem organizados. S pode ser a Mfia...
     - A Mfia? - cortou Andrade. - Acho que no neste caso. Acho que sei quem est por trs disso tudo...
     Da sua cadeira, Chumbinho arriscou: 
     - O Doutor Q.I., sem dvida. 
     Andrade olhou plido para o menino.
     - Chumbinho, voc...
     - Estou certo, no estou, Andrade? Quando voc passou pelo Elite, preocupado com a gente, trazendo um crach e um envelope da Penitenciria de Segurana Mxima, 
eu s podia desconfiar de uma fuga do Doutor Q.I., no ? E voc tem razo: um plano como esse s pode mesmo ser coisa dele...
     - Doutor Q.I.? Quem  essa pessoa? - perguntou Morales. 
     - Um gnio do mal, doutor - explicou Andrade, sem desmentir Chumbinho. - Algum perfeitamente capaz de arquitetar uma barbaridade como essa, de lucrar com a 
morte de milhes de inocentes!
     

     
     
     
    9. SEPARADOS NO SOMOS NINGUM
     
     O telefone da sala da Polcia Federal tocou mais uma vez. 
     -  para o senhor, detetive Andrade - chamou um policial, estendendo-lhe o fone.
     Era do Ministrio das Relaes Exteriores. O governo americano estava enviando dois agentes do FBI para acompanhar as investigaes.
     - Inferno! - praguejou Andrade, desligando o telefone. L vm esses gringos se meter com a gente! Eu j no tenho problemas de sobra?
     - Isso  normal, detetive Andrade - tentou explicar o doutor Hector Morales. - O doutor Bartholomew Flanagan, um cidado americano, est envolvido no problema. 
 normal que nosso governo esteja preocupado. Mas o senhor pode estar certo que os agentes do FBI s vo acompanhar suas investigaes. Tenho certeza que s vo 
ajudar. O doutor Bartholomew Flanagan  uma personalidade muito importante. Espero que o senhor descubra logo para onde o levaram. Espero que o senhor e os seus 
policiais possam salvar sua vida.  uma vida importante para toda a humanidade, detetive Andrade.
     - E a vida da minha professora? - interrompeu Magr.
     O doutor Morales aproximou-se da menina e, paternalmente, acariciou seu rosto com uma mo quente e delicada.
     - Oh, menina, sua professora vai ficar boa! A Drug Enforcement sente-se responsvel por tudo o que aconteceu. J dei ordens para que uma equipe mdica da melhor 
qualidade assuma o tratamento de dona Iolanda. Pode dexar. Todas as despesas correro por conta da Drug Enforcement. Sua professora est em boas mos...
     O diretor da Drug Enforcement era um homem calmo, seguro, carinhoso. No se parecia nada com a imagem fria e impessoal que todo mundo faz dos grandes executivos. 
Suas palavras confortavam o corao de Magr. A menina aceitou a carcia no rosto, como se o americano fosse um tio.
     O detetive Andrade aproximou-se dos trs.
     - Ah, meninos! Estou aqui falando e envolvendo vocs ainda mais nesse tumulto. Vocs no tm nada com isso. Devem estar exaustos. Ainda mais voc, Magr, depois 
de uma viagem to longa e de tanta confuso. Vou chamar uma viatura para lev-los para casa, em segurana. O melhor que tm a fazer  tomar um banho e esquecer tudo 
isso. Podem deixar os problemas comigo.
     Enquanto esperavam pela viatura, Magr, com um olhar, chamou Chumbinho para perto da janela da sala da Polcia Federal. Debruados no parapeito, falando muito 
baixo, os dois Karas podiam conversar.
     - O Doutor Q.I., Chumbinho! Fomos ns que acabamos com o plano sinistro dele, no caso dos seqestros de estudantes. Estava na cadeia por nossa causa. Agora, 
no mnimo, ele vai querer nossas cabeas numa bandeja! Precisamos de uma reunio de emergncia mxima dos Karas, imediatamente!
     Chumbinho falou entre dentes, com raiva e decepo na voz: 
     - Os Karas no existem mais, Magr...
     - O qu?! O que voc est dizendo, Chumbinho?
     Com os olhos vermelhos, contendo-se para no chorar, Chumbinho relatou todos os detalhes da reunio maluca dos Karas. Repassou cada uma das palavras duras trocadas 
entre Miguel, Cal e Crnio.
     - Foi horrvel, Magr. Eles estavam diferentes, estranhos, furiosos. Ah, como eu queria que voc estivesse l naquela hora! Mas s resolvi enviar o telegrama 
quando descobri a fuga do Doutor Q.I. Logo depois da maldita reunio, Andrade apareceu l no Elite, disfarando, perguntando se estava tudo bem...
     Ao longe, alm da vidraa fechada da sala, um Boeing levantava vo como uma gara, sob um sol de maarico.
     Olhando fixamente para a pista do aeroporto, Chumbinho falava e Magr ouvia, sem interromper. Mas, por sua cabea, um turbilho de suspeitas crescia.
     - No sei, Magr. No sei o que deu naqueles trs para se pegarem numa discusso besta. Nem posso imaginar por que os trs resolveram acabar com o grupo dos 
Karas. Tem alguma coisa estranha, Magr. Uma coisa que eu tenho de descobrir!
     O corao de Magr apertava-se dentro do peito. Ela conhecia aqueles trs muito bem. Dissolver o grupo dos Karas? Nenhum deles jamais sonharia com uma coisa 
dessas. Ento, o que teria havido? Ser que...? E uma suspeita doda ocorreu  menina. Seria ela a causa daquilo tudo? Seria ela a culpada do fim daquele grupo maravilhoso?
     Chumbinho continuava:
     - Eu tentei falar com eles mais uma vez, ainda agorinha, num orelho, enquanto espervamos a ambulncia, l no aeroporto. Cal estava de sada para um ensaio 
idiota. Na voz, parecia preocupado, mas disse que no tem nada a ver com cientistas seqestrados... No consegui falar com Miguel. L na casa dele disseram que ele 
foi a um treinamento para monitores de um tal acampamento de frias. Coisa de criancinhas!
     - E Crnio?
     - No quis nem conversa. Na hora, perguntou ansiosamente por voc. Quando soube que estava tudo em ordem, disse que tinha muito que estudar. Nem a fuga do Doutor 
Q.I. abalou aquele teimoso. Disse que o Doutor Q.I. na certa j fugiu do Brasil, que eu no me preocupasse. E desligou o telefone tambm.
     "O que est acontecendo?", perguntava a menina para si mesma. "Isso no  coisa deles! Nem Miguel, nem Cal, nem Crnio jamais recuariam frente a um desafio 
como esse. Foi por minha causa que tudo isso aconteceu? Ah, no pode ter sido, no pode!"
     Juntos, olhavam o aeroporto sob o sol. Sozinhos, sentiam-se desampa-rados.
     - Eu tenho de saber quem baleou dona Iolanda, Chumbinho! Ela est em coma, no hospital. E se ela morrer? 
     Chumbinho baixou ainda mais o tom de voz:
     - Magr, a sade de dona Iolanda no depende mais de ns. S podemos torcer. Mas o Doutor Q.I.  nosso problema. Voc sabe que ele no descansar, enquanto 
no se vingar dos Karas. Um por um!
     - Eu sei, Chumbinho, eu sei. Mas como vamos nos defender, separados? Juntos, j fizemos muita coisa, mas separados no somos ningum! Como convencer Miguel, 
Cal e Crnio disso?
     Apesar da gravidade da situao, Chumbinho estava com aquela expresso gaiata que marcava o caula dos Karas. Olhou para a amiga com um meio sorriso:
     - Eu tenho uma idia, Magr...
     
     ***
     
     O telefone da sala da Polcia Federal, no Aeroporto de Cumbica, no parava de tocar. Policiais ligavam de todas as partes da cidade, comunicando o que no estavam 
conseguindo, na execuo das instrues do detetive Andrade.
     - No h nem pista dos seqestradores - declarou Andrade, furioso, ao desligar mais um dos inmeros telefonemas. - At agora no encontraram ningum que tivesse 
visto os carros em que os bandidos devem ter fugido. Parece que desapareceram no ar, levando o cientista! So profissionais, dos melhores! Quer dizer... dos piores!
     O telefone tocou outra vez, e o prprio detetive atendeu.
     -  para o senhor, doutor Morales.  da Drug Enforcement...
     O americano pegou o telefone e falou em ingls:
     - Hello... What? For God's sake!... We should have expected something like that... My God! One billion!... Okay, we'll meet later. Don't do anything till I 
get there. All right!
     Quando o doutor Morales desligou, seu rosto estava da cor de uma folha de papel. Magr e Chumbinho, que falavam ingls perfeitamente, j tinham uma boa idia 
do significado do telefonema, mas Andrade no tinha entendido nada:
     - O que foi, doutor Morales?
     O americano passou a mo pelo rosto e suspirou:
     - Era da Drug Enforcement, detetive. Eles receberam um telefonema dos seqestradores.
     - E ento?
     - Os malditos querem um bilho de dlares para devolver o doutor Flanagan e a Droga do Amor!
     
     ***
     
     As roupas ensangentadas daqueles dois adolescentes chamavam a ateno de todos.
     Escoltados por dois policiais, Chumbinho e Magr atravessavam rapida-mente o saguo do aeroporto, em direo  viatura que os levaria para casa. 
     Encostados a uma coluna, dois homens muito parecidos conversavam discretamente.
     Quando a viatura policial fez o contorno para entrar na Rodovia dos Trabalhadores, um carro escuro seguia-os, a distncia.
     

     
     
     
    10. SEU FILHO EST EM NOSSO PODER
     
     O detetive Andrade entrou no seu velho fusquinha. O diretor da Penitenciria de Segurana Mxima estava esperando por ele. Era pela penitenciria que ele devia 
iniciar as investigaes. Andrade tinha certeza.
     "Doutor Q.I. !", pensava ele. "Como eu vou descobrir onde se escondeu esse bandido? Como  que ele pde, de dentro da cadeia, organizar um plano mirabolante 
como esse de seqestrar o doutor Bartholomew Flanagan e roubar a Droga do Amor? E como foi possvel passar para a ao horas depois de fugir da cadeia? Ah, eu preciso 
pr as mos em voc, Doutor Q.I.! Antes que voc possa fazer algum mal aos meus meninos..."
     No tinha rodado nem cem metros quando o receptor do rdio do carro chamou:
     - Detetive Andrade... Central chamando detetive Andrade. . .
     Pegou o fone e respondeu:
     - Detetive Andrade na escuta...
     Do outro lado, a voz estava excitada:
     - Venha para a Central imediatamente, detetive Andrade! 
     - O que houve?
     - Outro seqestro, detetive Andrade. Dessa vez  um menino. 
     - Que menino?
     - Ainda no sabemos o nome do garoto, detetive. S sabemos o apelido.
     - E qual  o raio do apelido do menino? Fale logo!
     - Um apelido gozado, detetive. Dizem que o menino  chamado de Chumbinho...
     
     ***
     
     A casa estava cercada por cinco viaturas da polcia e por tiras de plstico amarelo isolando a rea. Policiais em uniforme tentavam afastar os curiosos e as 
cmeras de tev.
     Uma bicicleta estava cada no gramado.
     Andrade encostou o fusquinha e correu para a casa. Identificou-se para o guarda da porta e entrou na sala.
     A primeira pessoa que viu foi Magr, sentada em uma poltrona, chorando, desconsolada. Ao lado estava uma senhora estendendo-lhe um copo d'gua. Os dois policiais 
que haviam escoltado a menina e Chumbinho do aeroporto para casa completavam o quadro, mostrando-se pouco  vontade.
     - Magr! O que aconteceu?
     A menina jogou-se nos braos do detetive:
     - Ah, Andrade! O Chumbinho! Dessa vez foi o Chumbinho! 
     Andrade, abraando a menina e dando tapinhas paternais em suas costas, falou irado para os policiais:
     - Vocs! Eu no disse para entregarem os meninos em segurana! O que vocs fizeram?
     - Desculpe, detetive Andrade, ns...
     Magr afastou-se um pouco e encarou o detetive. Seu lindo rostinho estava coberto de lgrimas.
     - No, Andrade. A culpa no  deles. Eles me levaram direitinho para casa, e depois trouxeram Chumbinho. Eles no tm culpa de nada!
     - E a senhora, quem ? - perguntou o detetive, voltando-se para a mulher com o copo d'gua. -  a me de Chumbinho? 
     - No - respondeu a senhora. - Sou a governanta da casa. A me do menino passou mal, desmaiou, e agora est l em cima com o mdico...
     A pacincia de Andrade estava cada vez menor:
     - Ento algum pode me dizer, por favor, o que aconteceu por aqui?
     - O menino chegou direitinho - continuou a governanta. - Tomou um banho e depois saiu para dar uma volta de bicicleta. Quinze minutos depois, eu ouvi a campainha. 
Vim atender, e no tinha ningum na porta. S encontrei o bilhete junto da bicicleta cada no gramado...
     - O bilhete? Que maldito bilhete  esse?
     Um dos policiais estendeu um grande envelope plstico, onde estava guardado um papel.
     - Este bilhete, detetive...
     Andrade pegou o envelope plstico. Dentro dele havia um papel amarelo coberto por frases recortadas de jornais:
     "Seu filho est em nosso poder. No chamem a. polcia nem a imprensa do contrrio; ele nunca voltar com vida. Esperem contato telefnico". 
     
     No fim do bilhete, Andrade tremeu, ao ler estas iniciais: QI
     - Maldio! O Doutor Q.I.!
     

     
     
     
    11. UM ANO DISFORME
     
     Era fim de tarde.
     O sol, que queimara o asfalto durante todo o dia, recolhia-se agora tingindo o cu sem nuvens de vermelho, laranja e amarelo. Poucos estudantes ainda circulavam 
pelo Colgio Elite. Aqueles que ainda faziam provas de recuperao ou estudavam para elas. Junto  sombra da marquise da entrada, ao lado das folhagens do belo jardim 
do colgio, uma figura ocultava-se.
     Se qualquer dos estudantes percebesse aquela presena, na certa se assustaria.
     Era uma figura disforme. Um ano horrendo. Corpo deformado e recurvo, rosto empelotado, barba rala, olhos midos e argutos. O nariz entortava-se sobre lbios 
grossos e dentes midos, muito brancos. Um pequeno chapu cobria-lhe os cabelos, que no viam gua h muito tempo.
     O ano esperava.
     
     ***
     
     Toda a imprensa abria seus espaos para a cobertura dos crimes surpreendentes do dia. As emissoras de televiso e de rdio no cansavam de procurar notcias 
novas para informar seu pblico, com uma avidez maior que a dos policiais:
     "O bilhete dos seqestradores traz uma estranha assinatura, senhores telespectadores: as iniciais Q.I. O que significaria isso? As iniciais de um nome? Uma 
sigla como 'C.V.', do Comando Vermelho? At agora nossa reportagem ainda no conseguiu maiores informaes da polcia..."
     "H uma poro de perguntas ainda no respondidas, senhores ouvintes. Por que seqestrariam apenas uma das testemunhas do caso do doutor Bartholomew Flanagan, 
o menino Chumbinho? E por que foi disparado apenas um tiro, ferindo gravemente uma professora, dona Iolanda Negri, que estava justamente ao lado do menino tambm 
posteriormente seqestrado?"
     "O cnsul americano, na capital, est preocupadssimo. O seqestro de um importante cidado de seu pas repercutiu negativamente na Casa Branca. Soubemos que 
o presidente americano ligou para Braslia e falou diretamente com nosso presidente, pedindo severas e urgentes providncias..."
     "Nossa reportagem acabou de saber que, nos prximos minutos, pousar um jatinho do FBI, trazendo dois agentes especiais, encarregados de ajudar a polcia brasileira 
nas investigaes.. ."
     "Acabamos de entrevistar um especialista em organizaes criminosas, senhores ouvintes. Segundo ele, 'Q.I.' pode significar 'Comando Internacional', uma nova 
faco de criminosos. Ainda de acordo com a opinio desse especialista, os bandidos, semianalfabetos, escreveriam 'Comando' com 'Q' e no com 'C' . . ."
     
     ***
     
     - Quanta besteira! Besteira, besteira! - falou Crnio para si mesmo, desligando o rdio. - E  Chumbinho? Ai, Chumbinho! Preciso...
     Correu para o telefone, mas a campainha do aparelho tocou antes que ele pegasse o fone.
     Crnio tremeu. Era Magr. J sabia da volta da menina pelo telefonema de Chumbinho, no aeroporto, mas ouvir aquela voz deixou-o sem fala.
     - Emergncia mxima. Em meia hora. 
     No havia o que discutir.
     - C-certo, Magr...
     Crnio desligou o telefone e saiu apressado para o Colgio Elite.
     
     ***
     
     Depois do telefonema de Chumbinho, Cal no pudera ir ao ensaio do "Escorial", do belga Michel de Ghelderode. O diretor da pea compreenderia. Tambm, se no 
compreendesse, problema dele. As preocupaes de Cal eram maiores do que seu amor pelo teatro.
     Precisava pensar, pensar... decidir... Chumbinho o convocara por telefone para uma emergncia mxima e ele respondera que no tinha mais nada com isso. Seu 
sangue, o sangue de um Kara, fervia nas veias.
     Suas dvidas foram interrompidas pela televiso, com a notcia do seqestro de Chumbinho.
     - O qu?? Chumbinho seqestrado?? Dane-se nossa briga! Eu vou...
     Sua deciso j estava tomada quando Magr telefonou. 
     - Em meia hora, Cal.
     - Certo.
     
     ***
     
     Miguel acabava de chegar em casa, depois do treinamento dos monitores de acampamento. No sabia dos desdobramentos do caso da Droga do Amor. No sabia do seqestro 
de Chumbinho.
     Atendeu o telefonema de Magr.
     - Emergncia mxima. Em meia hora, Kara. 
     A segurana do ex-lder dos Karas abalou-se.
     - Ma-Magr! Voc est ligando dos Estados Unidos? 
     - No. Estou de volta.
     - Mas o que houve? O Campeonato de Ginstica Olmpica ainda no...
     - No temos tempo para explicaes, Miguel. Emergncia mxima.
     Aquela voz, aquela convocao... Miguel esforou-se para recuperar o controle. Chegara ao momento mais difcil de sua encenao. Era preciso manter-se firme:
     - Escute, Magr, desculpe. No sei se voc j falou com Chumbinho, mas eu estou fora diss...
     - Cale-se. Chumbinho foi seqestrado. 
     - Estou indo.
     
     ***
     
     Magr tinha sido a primeira a chegar. Com diferena de minutos, um a um, os outros trs Karas surgiram pelo alapo do vestirio do Colgio Elite.
     Miguel fechou a rodinha formada pelos amigos ajoelhados no forro.
     O sol, descendo no horizonte, jogava seus raios horizontalmente atravs das poucas telhas de vidro e j no os iluminava. No escuro, Miguel falou, com segurana:
     - No temos tempo a perder. Magr, diga tudo o que sabe. 
     Magr sentiu que aquele rapaz era novamente o comandante dos Karas.
     
     ***
     
     Uma sombra disforme e torta galgava silenciosamente o telhado do vestirio do Colgio Elite.
     Arrastou-se sem rudo at bem perto das telhas de vidro e tirou do bolso um estetoscpio.
     Com as hastes nos ouvidos, colou o estetoscpio na fresta de duas telhas.
     Enquanto o ano ouvia, seus lbios contorciam-se em um sorriso torto.
     
     ***
     
     Magr usava sua incrvel capacidade de sntese. Sem omitir nenhum detalhe, narrou todos os lances de sua chegada ao aeroporto, do seqestro do doutor Bartholomew 
Flanagan, do tiro que atingira dona Iolanda, das conversas entre Andrade e o doutor Hector Morales, da fuga do Doutor Q.I. da penitenciria e, por fim, do misterioso 
seqestro de Chumbinho e do bilhete encontrado ao lado da bicicleta do menino.
     - Por que o Doutor Q.I. assinaria o bilhete?
     - Acho que  uma forma direta de nos ameaar, Crnio - raciocinou Magr. - Ele quer que ns saibamos de sua fuga. Que ele est atrs de ns...
     - E um dos Karas j est em poder dele. . . - concluiu Cal, com um tom desolado na voz.
     Uma imensa pausa silenciou os quatro Karas.
     O desafio era de arrasar. Nenhum deles ousava falar, mas cada um pensava que, se o Doutor Q.I. achava Chumbinho uma testemunha importante, no seria um resgate 
que ele pediria. Cada um deles procurava afastar do pensamento a dolorosa idia de que o caula dos Karas, quela hora, j podia estar morto...
     Miguel levantou a cabea:
     - Vamos agir. Nem a vida de Chumbinho nem a nossa valem nada enquanto o Doutor Q.I. estiver fora da cadeia. Precisamos do Andrade. Ele tem de nos ajudar.
     - Andrade? - riu-se Cal. - Ora, ele parece um pai! Ou uma me... Vive dizendo que a gente no deve correr riscos, que tudo deve ficar somente a seu cargo...
     Miguel cortou:
     - Ele vai ter de mudar de idia. Ligue para ele, Magr. Diga que tem uma informao importante que s pode ser passada para ele, sem testemunhas. No Parque 
do Ibirapuera, na primeira hora da manh!
     Ali estava de novo o lder dos Karas.
     Levantaram-se, prontos para sair do esconderijo secreto, e hesitaram por um momento, fitando um ao outro, na escurido.
     Miguel olhou fundo nos olhos de Magr, como se pudesse enxergar sua luz na escurido:
     - A ltima prova do Campeonato Mundial de Ginstica Olmpica vai ser amanh, Magr. Por que voc voltou antes? 
     Magr nada respondeu. Seu rostinho girou, encarando as sombras daqueles trs garotos que ela adorava. E que ela sabia que a adoravam. Seus trs Karas... Suas 
trs "Chiquitas"... Juntos, cada um podia sentir o calor excitado do outro. Cada um podia sentir pulsar o corao dos outros. Trs coraes pulsando por Magr. O 
coraozinho de Magr pulsando forte pelos trs. Porm, mais forte ainda por um dos trs...
     De repente, como se tivessem combinado, os quatro abraaram-se com fora, misturando suas vontades, sua amizade, sua coragem, seu amor...
     Ali estavam de novo os Karas, reunidos. Nada poderia jamais separ-los.
     

     
     
     
    12. POR TODOS OS SOFRIMENTOS DO MUNDO
     
     A noite j estava avanada e a sala da Central de Polcia cheia da fumaa dos muitos cigarros consumidos na reunio.
     Andrade no fumava. O que ele sentia, naquele momento, era a garganta e os olhos ardentes da fumaa dos outros. E uma fome desesperada.
     Um guarda saiu para buscar sanduches. Trs para Andrade e um para cada participante da reunio: o doutor Hector Morales, o diretor da Penitenciria de Segurana 
Mxima, dois homenzarres altos e corpulentos e uma senhora magrinha que estava l como intrprete, j que os dois grandalhes no entendiam uma palavra de portugus.
     Os dois tinham chegado ao entardecer, e Andrade estranhou quando foi apresentado a eles pelo cnsul dos Estados Unidos:
     - Estes so nossos especialistas em seqestros do Federal Bureau of Investigation, o FBI, como o senhor sabe, detetive Andrade. Este  o agente Patrick Lockwood...
     - Parece nome de tira de seriado! - resmungou Andrade, sabendo que os agentes no entendiam portugus.
     - Ah, ah, boa piada, detetive Andrade! E este outro  o agente Iri Mikhailevich...
     - Iri o qu?! - perguntou o gordo detetive, j meio incomodado pela interferncia estrangeira na sua investigao. - Isso no  nome russo?
     - Bem... quer dizer... - gaguejou o cnsul. -  que Iri era da KGB, a polcia secreta dos soviticos. Mas, como a Unio Sovitica no existe mais, ele veio 
procurar emprego nos Estados Unidos. O pessoal da CIA, a nossa polcia secreta, recomendou-o muito bem. Da, resolvemos aproveit-lo no FBI...
     "Esses americanos so uns malucos!", pensou Andrade, no incio da reunio.
     - At agora no conseguimos descobrir como o Doutor Q.I. fugiu da nossa priso - comeou o diretor da Peninteciria de Segurana Mxima. - Ele no deixou pista 
alguma. No h portas arrombadas, no h grades cerradas, os computadores que controlam as celas e as sadas esto intactos, ningum parece ter sequer se aproximado 
das cercas e das portas eletrificadas. S o que sei  que o homem no est mais l dentro. Sumiu como um fantasma!
     A mulher magrinha traduziu rapidamente para o ingls. O agente Patrick Lockwood fez uma expresso foradamente inteligente e balanou a cabea.
     - Well... that's our incumber one suspect... 
     Iri Mikhailevich perguntou:
     - Sht?... Oh, izvintie... Me sorry... l nitchev nhe partimiu... Me not underrrstand verry well...
     O russo ainda no havia aprendido ingls direito, e a mulher magrinha teve de repetir tudo, bem lentamente, at que Iri Mikhailevich demonstrasse ter entendido.
     - Pelo jeito, a segurana da sua penitenciria no  to mxima assim, no , diretor? - provocou Andrade.
     O diretor mexeu-se na cadeira, ofendido:
     - Detetive Andrade, eu lhe garanto que o modo de sair da penitenciria que eu dirijo  pela porta da frente, com um alvar de soltura. S que nenhum dos sentenciados 
que esto l poder ser solto antes de cinqenta anos. Assim, a nica maneira de sair da Penitenciria de Segurana Mxima  atravs de um alvar de transferncia 
para outro presdio. No conheo outro modo!
     Andrade levantou-se e caminhou pela sala, praguejando:
     - Diabo! O jeito vai ser interrogar todos os guardas, todos os prisioneiros...
     - Meus guardas e carcereiros esto s suas ordens, detetive - ofereceu o diretor. - Mas duvido que os prisioneiros informem qualquer coisa ao senhor. L dentro 
esto as maiores feras do nosso Estado. Se somarmos todas as penas que cada um deles tem a cumprir, vai dar mais de dez vezes toda a Era Crist...
     - Precisamos descobrir como o Doutor Q.I. fugiu - insistia Andrade. - Precisamos de pistas! Precisamos pelo menos de uma ponta da meada, para que eu possa comear 
a puxar. ..
     A conversa emperrou mais um pouco, at que a intrprete traduzisse o que estava sendo dito e at que o russo entendesse pelo menos por alto.
     - Sht? Vhat? Sht on skazal?
     
     ***
     
     A porta se abriu e Andrade olhou ansiosamente. Na certa eram os sanduches...
     No eram. Era um outro guarda.
     - Telefone para o senhor, detetive Andrade.
     - Eu j no disse que no podemos ser interrompidos?
     - Desculpe, detetive... Ela disse que  sua sobrinha. E que  urgente... Na linha dois...
     "Magr, s pode ser Magr!", pensou Andrade, pedindo licena para atender na outra sala. No queria falar com Magr na frente daquelas pessoas.
     Pegou o fone e apertou a tecla da linha dois. Era Magr.
     - O que voc quer, minha querida? Estou numa reunio muito importante e...
     - Andrade, precisamos falar com voc!
     -  sobre o Chumbinho?  claro que  sobre o Chumbinho! No se preocupe, minha querida, estamos tomando todas as providncias e...
     O detetive argumentou de todas as maneiras, mas era impossvel vencer a teimosia e a argumentao de Magr. Principalmente a teimosia.
     Acabou concordando. Na manh seguinte, cedinho, no Parque do Ibirapuera. Ele estaria l.
     "Ah, esses meninos!", pensava ele, ao desligar.
     
     ***
     
     Quando voltou para a sala, os sanduches e algumas garrafas de refrigerante j estavam sobre a mesa.
     O calor e a fome eram grandes, e todos interromperam a reunio com prazer.
     Depois de devorar seus trs sanduches, no mesmo tempo que Hector Morales levou para comer apenas um, Andrade perguntou:
     - E o doutor Bartholomew Flanagan? Como  ele, doutor Morales? Quando os seqestradores telefonarem novamente, vamos pedir uma prova de que o cientista ainda 
est vivo. Para isso, preciso saber de detalhes da vida e da personalidade dele, para que a gente possa criar algumas perguntas que s ele possa responder...
     - O doutor Bartholomew Flanagan? - comeou Morales. - Oh, eu o conheo muito bem! Ele...
     A senhora magrinha acabava de traduzir para os agentes do FBI o que Andrade e Morales conversavam quando o agente Patrick Lockwood levantou seu corpanzil e 
veio de l com um envelope na mo:
     - Here you are, detective. We brought everything we need to know about Doctor Bartholomew Flanagan. Here's some photos and here is a paper with a briefing about 
hi.s life...
     Dessa vez foi Andrade que no entendeu nada: 
     - O que ele disse?
     A intrprete traduziu:
     - Ele disse que o FBI tem toda a ficha do doutor Bartholomew Flanagan. Trouxe algumas fotos e um resumo da vida dele...
     Andrade pegou o envelope. Havia vrias fotos. Em vrias delas, o cientista aparecia sorridente, de bermudas e culos escuros. Andrade leu atrs das fotos. Algumas 
eram da Praia de Tampa, na Flrida, outras de Acapulco, no Mxico, e as mais bonitas eram de Honolulu, no Hava.
     Olhou as duas folhas de computador que acompanhavam as fotos e estendeu-as para a senhora magrinha.
     - Traduza, por favor.
     A mulher ajeitou os culos e traduziu.
     - Bartholomew Sayre Flanagan. Nascido em 1939, em Augusta, na Gergia. Apelido de infncia: Bmbow. Doutorado em cincias biomdicas por Harvard. Principal 
cientista da Drug Enforcement. Casado com Mildred Winterland Flanagan em 1963. Enviuvou em 82. Sem filhos. Mora na Praia de Malbu, na costa oeste. Costuma passar 
suas frias nas praias da Flrida, no Mxico ou no Hava. Foi surfista quando jovem...
     - Sht? Vhat? - perguntava o russo. - Izvintie... l nitchev nhe panifniu... Me not underrstand...
     Depois que a intrprete terminou de traduzir os registros do FBI sobre o cientista seqestrado, e de tentar esclarecer alguma cosa para o agente russo, Andrade 
voltou-se para Hector Morales:
     - Um folgado, esse doutor Flanagan! Que vido esses cientistas americanos levam! Malibu, Hava, Acapulco, Flrida! 
     Hector Morales concordou:
     -  verdade. Flanagan sabia levar a vida, quando conseguia tirar frias. Mas, no trabalho, era o mais compenetrado e competente de todos os cientistas da Drug 
Enforcement. Encontre-o, detetive Andrade. Ele tem de estar inteiro, para ganhar o Prmio Nobel pela descoberta da cura para a praga do sculo!
     - A Droga do Amor...
     - Sht? Sht? Vhat? Vhat? - perguntava o russo, que no entendia uma vrgula de tudo o que estava acontecendo.
     
     ***
     
     Antes de ir para casa, Magr tomou um txi e rumou para o hospital. Precisava de notcias de dona Iolanda.
     Era um hospital particular, pequeno, um dos mais bem equipados da cidade.
     Um carro negro estava discretamente estacionado em frente. Encostados no cap, dois homens conversavam.
     Magr empurrou a porta de vidro e entrou no saguo do hospital. Uma recepcionista estava meio oculta atrs de um balco. 
     - Boa noite - cumprimentou Magr. - Eu queria visitar Iolanda Negri.
     A mulher levantou a vista. Pelo jeito, estava de muito mau humor por ter de cumprir aquele planto noturno. Respondeu, carrancuda:
     - A paciente est na Unidade de Terapia Intensiva. Visitas proibidas.
     - Mas a senhora nem olhou na lista. Como sabe que... 
     - No insista, mocinha. Boa noite.
     Magr no desistia.
     - Olhe, moa. Ento eu queria falar com algum dos mdicos encarregados de cuidar dela...
     A mulher olhou para Magr de novo. 
     - Um momento.
     Sua mo desapareceu sob o balco. Devia ter acionado uma campainha ou algo assim, pois logo apareceu um homem sorridente, todo de branco, estetoscpio pendurado 
no pescoo.
     - Pois no?
     - Esta mocinha quer saber notcias da paciente baleada que est na UTI - informou a recepcionista, de maus modos.
     O mdico sorriu:
     - Sim? A senhorita  filha da paciente?
     - No. Sou aluna dela. Ela  minha amiga. ..
     O mdico aproximou-se de Magr, afavelmente. No entanto, sua expresso era sria.
     - Olhe, mocinha, sua professora foi baleada seriamente. Ela se encontra em coma profundo. Mas ela est sob os cuidados da melhor equipe mdica. Estamos fazendo 
de tudo. Talvez, em vinte e quatro horas, ela comece a reagir. Confie em ns.
     No txi, de volta para casa, Magr deixou-se chorar. Por dona Iolanda, por Chumbinho, pelo amor dos Karas, por todos os sofrimentos do mundo...
     
     ***
     
     O jardim da casa de Magr estava escuro. rvores altas sacudiam docemente os ramos sob a brisa da noite de vero.
     Nas sombras, um vulto. Um vulto pequeno, recurvado. Como um felino noturno, o vulto arrastou-se cuidadosamente na direo da janela iluminada.
     Dentro do retngulo de luz que vinha da janela aberta, Magr entrava no quarto e jogava-se na cama, sem apagar a luz. Pelo jeito, ainda chorava.
     Apoiando suas pequenas mos deformadas no parapeito da janela, o vulto ergueu a cabea.
     Os olhos argutos do ano invadiram o quarto.
     

     
     
     
    13. COITADINHA! QUASE UMA CRIANA!
     
     As cores da manh ainda procuravam firmar-se. No Parque do Ibirapuera, a temperatura estava uma delcia.
     Sob uma rvore, meio aglomeradas em um banco, cinco pessoas conversavam, alheias aos praticantes madrugadores de cooper que de vez em quando passavam bufando.
     Andrade sentia-se incomodado, informando queles quatro adolescentes uma srie de detalhes do inqurito que deveria permanecer em sigilo. Mas, como resistir 
aos seus meninos? E o detetive sabia que eles eram realmente especiais e que corriam perigo de vida com o Doutor Q.I.  solta. Como no preveni-los?
     Tirou do bolso o envelope que recebera do agente Patrick Lockwood. Magr abriu-o e folheou as fotos.
     - ...  esse homem mesmo. Era ele que estava junto com o doutor Morales, no avio. Foi ele que os bandidos levaram  fora, no saguo do aeroporto.
     - O criador da Droga do Amor! - admirou-se Cal.
     Os Karas j tinham extrado tudo o que o detetive sabia. Tudo o que relatara o diretor da Penitenciria de Segurana Mxima, tudo o que informara o doutor Hector 
Morales e o nada que os investigadores sob o comando de Andrade tinham conseguido no dia anterior.
     -  preciso agora encantrar um ponto de partida - comeou Crnio. - Vamos pensar de novo em tudo e procurar a linha lgica. Ontem, no rdio, eu ouvi um comentarista 
que era menos idiota do que a mdia. Ele apontou uma srie de perguntas sem respostas. Em primeiro lugar, por que o seqestro de Chumbinho? O que Chumbinho teria 
a ver com o doutor Bartholomew Flanagan? O que Chumbinho teria a ver com a Droga do Amor?
     Magr levantou os braos, criticando o amigo:
     - Ora, Crnio! Voc est se esquecendo que quem est por trs de tudo  o Doutor Q.I.? Quando ele soube que eu e Chumbinho estvamos no aeroporto e que eu vim 
no mesmo avio que o cientista, resolveu tornar uma providncia para nos assustar...
     - Humm... - fez Cal. - No me parece muito lgico... 
     -  claro que  lgico! - insstiu a menina. - Ele quer vingar-se da gente, no quer? Ento vai pegar todos ns, um a um!
     - Bem, isso  bastante lgico - concordou Andrade.
     - Outro ponto que parece coincidncia demais  o furto da bolsa da Magr - continuou Crnio. - Ter sido algum espertinho que se aproveitou da confuso? Mas 
como pode um ladrozinho agir enquanto est acontecendo um tiroteio?
     - Ora, Crnio! - riu-se Andrade. - No aeroporto, ocorrem pequenos furtos o tempo todo! Todos os dias h algumas ocorrncias. Bagagens perdidas, coisas assim...
     - Bom, gente - decidiu Miguel. - O seqestro do doutor Flanagan  um acontecimento mundialmente grave. Meu medo  que todos os esforos se concentrem nele, 
e Chumbinho acabe esquecido. Chumbinho  nosso problema. Temos de agir, depressa!
     - Espere a, Miguel! - interrompeu Magr. - Tudo  obra do mesmo Doutor Q.I. Se conseguirmos salvar o peixe grande, que  o doutor Bartholomew Flanagan, salvaremos 
tambm o nosso peixinho. Vamos nos concentrar no cientista!
     - O que  isso, Magr? - espantou-se Cal. - Voc prope que a gente s pense no cientista? Que histria  essa?  do Chumbinho que ns estamos falando!
     - Escute aqui, Cal: ningum gosta mais do Chumbinho do que eu!
     - Calma, pessoal ! - pediu Crnio. - No se trata aqui de disputar quem gosta mais de quem...
     Sem conseguir conter o impulso, Cal encarou Miguel. Magr olhou para longe.
     - Voltemos aos pontos obscuros - continuou o geninho dos Karas. - Por que deram apenas um tiro no aeroporto? Por que balearam s a dona Iolanda? Se pelo menos 
tivesse havido um tiroteio, e ela recebesse uma bala perdida, ainda daria para aceitar, mas...
     - Eu tambm no consigo entender esse ponto - reforou Magr. - Que ligao especial poderia ter dona Iolanda com o caso? Com o doutor Bartholomew Flanagan? 
Ela, como eu e outras centenas de passageiros, viemos no mesmo vo. Por que s ela?
     - Porque ela foi a primeira a gritar - palpitou Andrade. No foi isso o que voc sups, Magr?
     - Pode ser, Andrade, pode ser...
     
     ***
     
     Por trs do banco, uma moita de azalias erguia-se alta, comeando a sombrear os cinco.
     No meio da moita, escondia-se o ano.
     Destacando-se na cara empelotada, ainda mais sinistra sob a luz do sol, os olhos argutos do ano apertavam-se, ouvindo a conversa.
     
     ***
     
     - Se dona Iolanda no foi baleada acidentalmente - continuava Crnio -, se o tiro foi proposital, qual teria sido a razo? Ser que ela reconheceu algum dos 
bandidos, algum que estivesse dentro do avio, por exemplo?
     - Acho que no, Crnio - respondeu Magr. - O grupo de seqestradores estava esperando os passageiros no saguo.
     - E se dona Iolanda, por acaso, reconheceu algum desse grupo? Algum que ela j conhecia anteriormente?
     - Pode ser. Como vamos saber? 
     - Perguntando para ela, ora! 
     Magr encolheu os ombros.
     - Tentei falar com dona Iolanda ontem  noite. Ela no pode receber visitas. Falei com um mdico que est tratando dela.
     - Ento temos de entrar l usando a cabea, gente! - decidiu Miguel. - Eu tenho um plano. ..
     Andrade, sem querer, deixava-se envolver pelo entusiasmo e pelo raciocnio dos seus meninos. Sorrindo, olhava para cada um e apenas ouvia. Com orgulho, ouviu 
Miguel apresentar detalhadamente seu plano de invaso do hospital, at o momento em que o rapazinho estava quase terminando:
     - ... e a, Andrade espera Magr com o fusquinha perto do hospital e...
     Nesse momento, Andrade despertou para o absurdo da situao em que estava se deixando enredar:
     - Ei! Pare a! Que negcio  esse? Vocs no passam de crianas! Acham mesmo que eu vou deixar que vocs se arrisquem desse jeito? Esto muitssimo enganados! 
Nem por cima do meu cadver!
     
     ***
     
     O fusquinha entrou na curva cantando os pneus e brecou em frente ao hospital.
     De dentro do carro, dirigido por um homem gordo, suado, saiu um casalzinho. A mocinha gemia e andava com dificuldade, apoiada num rapaz que teria no mximo 
a mesma idade dela. O homem gordo saiu apressado, deixando a porta aberta, e pegou a mo da moa, com uma expresso compungidssima.
     - Ai, ai... acho que no vou agentar, papai...
     Sua barriga estava enorme. O vestidinho erguia-se na frente, apertado, quase rasgando.
     - Depressa! - pediu o homem gordo para o primeiro atendente que encontrou no saguo do hospital. - Minha filha! Est em trabalho de parto! Depressa, por favor!
     A mocinha, gemendo, foi colocada em uma cadeira de rodas e levada s pressas para dentro.
     - Pode deixar conosco, senhor - disse a recepcionista, por trs do balco. - Vamos j chamar o obstetra. Sua filha est em boas mos. Quer preencher a ficha?
     Uma senhora,  espera no saguo, balanou a cabea:
     - Coitadinha... Quase uma criana... Deve ser me solteira... E olhou com cara feia para o rapaz que, ao lado do pai da moa, demonstrava-se sem jeito, com 
cara de culpado.
     - Esses homens... - rosnou a senhora. - Desde jovens s querem se aproveitar das moas... Depois, olha a!
     
     ***
     
     Atrs do hospital, o ano arrastava-se por uma viela. Torto como uma aranha, escondeu-se atrs de uma pilha de caixas de papelo que provavelmente aguardavam 
a chegada do lixeiro. Imvel, parecia esperar.
     
     ***
     
     Magr foi deixada em uma sala no andar trreo. Deitaram a menina numa cama.
     - Tenha calma, minha filha - uma enfermeira passou-lhe a mo pela testa. - Respire fundo. O mdico j vem a . . .
     - Ai, ai... est bem...
     A porta da sala ficou aberta. Magr viu uma maca sendo arrastada no corredor.
     - Pode deixar aqui a maca - disse uma voz. - Esta paciente j est sedada. A Matilde vai lev-la para a sala de operao.  apendicite...
     Magr levantou-se sorrateiramente da cama. Tirou um grande travesseiro de baixo do vestido e, agachadinha, foi at o corredor, ocultando-se atrs da maca com 
a mulher que ia ser operada de apendicite.
     Rapidamente, levantou a camisola da mulher e ps o travesseiro sobre a barriga da anestesiada.
     "Pronto! Eles vo tomar um sustinho l na sala de operaes. Ah, eu queria ver a cara deles quando algum tiver a idia de levantar a camisola dessa coitada..."
     Havia uma escadinha, dando para o subsolo. Magr desceu. Era um depsito e tambm uma espcie de vestirio das serventes do hospital.
     Vestiu rapidamente um uniforme amarelo, amarrou um leno na cabea, ocultando o rosto ao mximo, pegou uma vassoura e subiu de novo as escadinhas.
     "Muito bem. A hora da faxina deve ser mais cedo. Mesmo assim, acho que ningum desconfiar de uma servente andando pelos corredores."
     Ao entrar no hospital, enquanto gemia, a menina teve tempo de descobrir qual era o andar da UTI, ao examinar o quadro dos setores do hospital, pendurado na 
parede atrs da recepcionista.
     "Ainda bem que essa  outra. Se eu encontrasse a mesma recepcionista de ontem  noite, na certa ela me reconheceria..." Evitou os elevadores. Era mais seguro 
pelas escadas.
     

     
     
     
    1 4. VOC PRECISA VIVER, MEU AMORZINHO!
     
     A UTI ficava no ltimo andar.
     Magr entrou no longo corredor de cabea baixa, varrendo os cantos, de modo que seu rosto ficasse protegido de qualquer olhar.
     Com o canto dos olhos, viu, em frente a uma porta, dois homens em p, apoiados na parede. Dois goriles.
     Por que dois homens estariam ali, guardando apenas uma das portas? Seriam seguranas protegendo algum poltico internado? Magr duvidou:
     "Aposto que aquele  o quarto onde est dona Iolanda... E esses s podem ser homens do Doutor Q.I.! O que querem com a minha professora?"
     Precisava pensar no que fazer. Abriu a primeira porta e entrou.
     Era um quarto grande, e as luzes estavam apagadas. As cortinas filtravam um pouco da claridade da manh.
     A menina olhou para o retngulo de vidro da porta que fechara atrs de si. E, pelo lado contrrio, leu o que estava escrito: Isolamento Infantil
     Logo abaixo, l estava a sinistra sigla da praga do sculo... Magr sentiu o corao apertar-se.
     Aproximou-se de um dos beros.
     Um beb dormia. Pouco mais de um ano de idade, talvez dois... Um esqueletinho, coberto por manchas vermelho-escuras. Respirava com dificuldade. Tubos espetavam-se 
em seus braos.
     "Essa criana nunca mais vai brincar... Perdeu a chance de descobrir o mundo, de fazer parte dele... Ai! Por qu? Por que ela foi amaldioada? Por que a morte 
tem de levar esse beb? O que essa criana fez para merecer isso?"
     Esquecendo-se por um momento do que viera fazer ali, a menina debruou-se sobre o bero e beijou ternamente o rostinho magro, adormecido.
     "Meu amorzinho... Viva, por favor! Como algum pode roubar o soro que poderia fazer voc sorrir de novo? Que poderia fazer voc brincar novamente com as outras 
crianas? Como pode algum ser to cruel? Como pode algum pensar em lucrar com a sua morte? Por que, queridinho? Por qu?"
     Magr chorou sobre o beb, como se o sal de suas lgrimas pudesse arrancar aquela praga que destrua uma vida como aquela, to tenra, to inocente...
     "Ah, meu queridinho! Eu tenho de lutar! Eu no posso deixar voc morrer! Voc precisa da Droga do Amor, porque esse mundo precisa do seu amor, da sua vida! 
Esse mundo ser pior, mais feio, mais vazio se voc morrer... Eu nem sei como  o seu nome. Talvez eu nunca pudesse ver voc crescer, tornar-se adulto, mas eu preciso 
que voc viva!"
     Levantou-se, decidida.
     
     ***
     
     Magr afastou ligeiramente as cortinas de uma das janelas da sala de isolamento infantil. Abriu a vidraa e olhou.
     "Pelo meu clculo, a janela do quarto onde deve estar dona Iolanda  a dcima, a partir desta..."
     Uns quinze metros separavam a janela da rua, l embaixo. Examinou a parede. Uma salincia de uns cinco centmetros percorria toda a fachada, um metro abaixo 
da linha das janelas.
     "Muito bem. Se eu imaginar que estou no Campeonato Mundial de Ginstica Olmpica, apoiar os ps na salincia e agarrar-me aos parapeitos das janelas, acho que 
vai dar.. ."
     No campeonato, Magr adorava platias cheias, aplaudindo suas performances. Mas, naquele caso, qualquer espectador l embaixo acharia muito estranha uma demonstrao 
de ginstica olmpica nas paredes de um hospital.
     Do outro lado da rua, dois homens de terno estavam encostados em um carro escuro. Pareciam parentes dos dois goriles que guardavam a porta do quarto.
     O sol abrasava, batendo em cheio naquela parede do hospital. Qualquer um dos dois homens, ou algum passante, se levantasse os olhos, iria assistir a toda a 
acrobacia que a menina pretendia fazer para chegar at o quarto de dona Iolanda.
     Um pouco mais longe, na esquina, o fusquinha de Andrade estava estacionado, esperando.
     Magr pegou um abajur de cabeceira, acendeu-o e tapou sua luz com um pequeno travesseiro.
     Pela cortina entreaberta, mostrou a luz acesa. Tapou-a de novo, destapou-a, tapou-a, destapou-a...
     
     ***
     
     Dentro do fusquinha, Miguel chamou a ateno dos outros: 
     - Vejam! Naquela janela!
     Andrade, Crnio e Cal olharam. Uma luzinha piscava intermitentemente atrs das cortinas.
     -  Magr - sorriu Crnio. - Que danada! Est transmitindo em Cdigo Morse!
     - Fique quieto! Estou tentando traduzir! 
     - Vocs conhecem o Cdigo Morse? - espantou-se Andrade, como se ainda houvesse alguma coisa naqueles garotos que pudesse surpreend-lo.
     - Um curto, dois longos...
     - Peguei! - disse Crnio. - "No deixem ningum olhar para cima." Ah, ah! Ela est dizendo para a gente dar um jeito de distrair as pessoas da rua! Vai aprontar 
uma das boas!
     - Cal - comandou Miguel. - Voc  o ator. Esse  um trabalho para voc.
     - Certo, Miguel.
     Andrade no estava entendendo nada:
     - U... Que besteira  essa? Que negcio  esse de no olhar para cima? O que  que tem a ver as pessoas na rua? O que  que o Cal vai fazer?
     Crnio ps a mo no ombro do detetive.
     - Andrade, acho que  melhor voc tambm no olhar para cima nos prximos dez minutos...
     - Ai, esses meninos esto todos malucos! Onde  que eu estava com a cabea quando deixei eles se envolverem nisso? Malucos! So malucos!
     
     ***
     
     Crnio e Miguel saram do carro e comearam a andar pela calada oposta ao hospital. Conversavam despreocupadamente e deram uma paradinha quando chegaram ao 
lado dos dois homens do carro escuro.
     Os homens nunca tinham visto aqueles rapazes e no se incomodaram com eles.
     Nesse momento, vindo do outro lado da calada, depois de dar a volta no quarteiro, surgiu Cal.
     Parou e fez uma expresso furiosa, apontando o dedo para Crnio:
     - Vincius, seu desgraado! Ainda bem que te encontrei! 
     Crnio mostrou-se surpreso.
     - Oh, Z Luiz...
     - Que Z Luiz nem meio Z Luiz! Voc tem de largar do p da Vanessa! Ela  minha namorada!
     Crnio parecia sem jeito e tentava explicar-se:
     - Eu? Ora, o que  isso? Eu no tenho nada com a Vanessa...
     - Mentiroso! Eu vou...
     
     ***
     
     Mesmo sem entender a razo da cena, o detetive Andrade, sentado no fusquinha, divertia-se com aquilo, como um pai orgulhoso assistindo s gracinhas dos filhos..
     Mas, naquele momento, o corao do detetive gelou.
     Uma das janelas do quinto andar do hospital abria-se, e uma menina esbelta, com um uniforme amarelo sobre o vestido, punha as pernas para fora, dependurando-se 
no parapeito.
     "Magr! No!"
     O pobre Andrade no sabia o que fazer. De boca aberta, corao na mo, via a menina grudar-se na parede e arrastar-se lentamente para os lados, s com as pontinhas 
dos tnis apoiadas numa salincia minscula. Um nmero de circo, a quinze metros do cho. E sem rede!
     "Ai, no! Voc vai morrer, Magr! No, no me mate do corao!"
     Da segunda janela, Magr repetia a operao, passando para a terceira...
     
     ***
     
     Os dois homens pareciam divertir-se com a discusso dos trs rapazes. Duas mulheres, carregando sacolas de compras, pararam e ficaram tambm observando.
     Enquanto dois discutiam, o terceiro tentava conciliar, apartar o que j estava quase se tornando uma briga.
     - Que  isso, gente? Deixa pra l! Vamos conversar!
     - Conversar coisa nenhuma! O que esse cara pensa, vindo aqui me tirar satisfaes?
     - A Vanessa  minha!  minha!
     - Deixa de ser besta! A Vanessa no est nem a pra voc! 
     - O qu?!
     O rapaz, furioso, tentou agarrar o outro pela camisa. Este desvencilhou-se e socou o agressor.
     Cal caiu para trs e comeou a cena principal. Contorcendo-se, seus olhos viravam nas rbitas e uma espuma de saliva comeou a escorrer pelos cantos da boca 
do agredido.
     - O que voc foi fazer, Vincius? Voc no sabe que o Z Luiz sofre de ataques? E agora?
     - Oh, eu no sabia. ..
     Cal contorcia-se magistralmente, e um ronco surdo saa de sua garganta...
     
     ***
     
     L em cima, como uma macaquinha, Magr passava de janela em janela.
     Depois de atravessar quase toda a fachada do hospital, a menina agarrou-se no parapeito onde chegara e alou o corpo para cima. Em um segundo, desapareceu pela 
janela.
     Andrade no conseguia mover-se.
     
     ***
     
     Uma das senhoras com sacola aproximou-se, preocupada: 
     - O que houve com o garoto? Vamos lev-lo para o hospital aqui em frente!
     Os olhos de Cal, revirando-se, viram Magr terminar seu nmero circense. Na mesma hora, parou de contorcer-se. Sacudiu a cabea e sentou-se na calada.
     - Pode deixar, minha senhora - acalmou Miguel. - Ele j est melhorando.
     "Vincius" abaixou-se para ajudar "Z Luiz" a levantar-se: 
     - Oh, desculpe, Z Luiz... Est melhor?
     - Hum... estou, pode deixar.
     Os dois ajudaram "Z Luiz" a levantar-se e caminharam para a esquina. Em pouco tempo, j tinham desaparecido.
     
     ***
     
     Cal esfregava o queixo:
     - Voc precisava bater to forte, Crnio? 
     - Realismo, Kara, isso  realismo!
     - E aonde  que voc foi buscar esse "Z Luiz"?
     - No mesmo lugar em que voc achou esse tal "Vincius" ora! Vincius... Que idia!
     Depois de dar a volta no quarteiro, os trs Karas foram encontrar o detetive Andrade.
     Dentro do fusquinha, havia um gordo homem-esttua, agarrado ao volante, de boca aberta, e branco como se tivesse visto a mula-sem-cabea.
     Esgazeados, fixos na fachada do hospital, os olhos do detetive no conseguiam nem piscar.
     

     
     
     
    15. EU TE AMO, DESESPERADAMENTE...
     
     Magr entrou como um gato pela janela do quarto.
     Aos poucos, enquanto seus olhos acostumavam-se com a diferena de iluminao, a menina foi percebendo a cama a sua frente. E o vulto adormecido.
     Aproximou-se. L estava dona Iolanda.
     A menina examinou superficialmente o corpo da professora. Abaixo da axila esquerda, perto do seio, um curativo grande.
     No havia nenhum aparelho a que a professora estivesse ligada. Nem monitores para o corao, nem respiradores artificiais, nada. Apenas um tubo estava espetado 
na veia do brao, pingando gota a gota o lquido de um frasco pendurado em um suporte ao lado da cama.
     "No parece to grave, esse ferimento... Como  que ela pode estar em coma? O que  isso? Aqui tem alguma coisa muito estranha... No preciso ser mdica para 
saber que estar em coma no  isso .."
     Desprendeu com cuidado um lado do esparadrapo e levantou uma ponta do curativo.
     Ali estava. Um corte meio fundo, lateral. A bala no tinha penetrado no corpo da professora.
     "Que histria de coma  essa? Ah, preciso agir!"
     Era um risco grande, mas a intuio e a inteligncia da menina diziam-lhe que se alguma coisa estava errada com dona Iolanda, s poderia ser o que vinha daquele 
frasco e pingava-lhe na veia.
     Suspirou, respirou fundo e decidiu-se.
     "Uma deciso grave. Tenho de tom-la. Vou tom-la!" Olhou em volta. Sobre uma mesinha de servio, havia vrios frascos. Em um deles, estava escrito "soro fisiolgico".
     "Um soro inofensivo. Igual aos lquidos naturais do corpo humano.  disso que eu preciso!"
     Magr retirou do suporte o frasco que estava dependurado, com o maior cuidado. Despejou o contedo na pia. Lavou-o muito bem e reencheu-o com o soro fisiolgico.
     Pronto. Tinha sido ousada demais. Mas Magr era um Kara. Sentou-se ao lado da professora e tomou-lhe a mo.
     Dona Ilanda respirava bem, calmamente. O tempo passava, parecia uma eternidade.
     At que a adormecida suspirou. Mexeu-se um pouco. Balanou a cabea.
     Era isso. Magr estava certa. Era aquele lquido que fazia com que ela ficasse adormecida. Um coma induzido!
     "Mais um crime..."
     Magr colou a boca ao ouvido de dona Iolanda: 
     - Dona Iolanda, sou eu, Magr.
     Com um fio de voz, a professora falou: 
     - Magr...
     - Fique quieta, dona Iolanda. Por favor, fique quieta. Voc est rne entendendo?
     - ... sim...
     - Oua: voc foi anestesiada, mas est bem. Seu ferimento  superficial. Tem de ficar quieta, como se ainda estivesse sem sentidos. Isso  fundamental. Voc 
est correndo perigo mas, em meia hora, eu vou tirar voc daqui. Est me entendendo? Se algum entrar nesse quarto, finja que ainda est desacordada!
     A mo da professora apertou um pouco mais a mozinha de Magr:
     - Magr... Ele... ele apontou para mim... ele mandou atirar... Em mim...
     - Ele? Quem  ele?
     - No aeroporto... ele ... Um rudo.
     Algum comeara a girar a maaneta da porta do quarto de dona Iolanda.
     
     ***
     
     Aos poucos, o detetive Andrade foi recuperando a cor do rosto. Queixava-se, quase choramingando.
     - Vocs so loucos! Malucos! O que aquela menina foi fazer? E se ela casse l de cima? Vocs esto completamente alucinados... Querem me matar do corao...
     - No se preocupe, Andrade - acalmava Cal. - Magr  campe de ginstica olmpica. Ela sabe o que faz. Voc pode no acreditar, mas ela no corria nenhum perigo, 
andando pela fachada do prdio.
     - Loucos... todos loucos...
     - Est na hora - lembrou Miguel. - Crnio, de acordo com o plano, voc tem de estar atrs do hospital, na viela, em cinco minutos. Fique l e, se houver alguma 
coisa errada, avise Magr com os dois assobios combinados. Cal, fique na entrada da viela. No perca tempo avaliando nada: se alguma coisa parecer suspeita, avise 
com os assobios para dentro da viela.
     - Certo.
     - Certo, Miguel.
     - So loucos... completamente loucos...
     
     ***
     
     Magr percebeu que havia outra porta na parede lateral do quarto de dona Iolanda. Uma ligao com o aposento ao lado.
     Aquele aposento tinha de estar vazio!
     
     ***
     
     O ano sabia que no poderia ser encontrado na viela. Abriu uma das caixas de papelo e enfiou-se dentro dela.
     Com um canivete afiadssimo, abriu um buraco no papelo. Todo o seu corpo horrendo estava escondido. Pelo buraco, o olho arguto do ano vigiava.
     
     ***
     
     O aposento no estava vazio.
     Mas quem ocupava o quarto no poderia denunciar a menina. Era um velho. Um paciente deitado. Ou no era nem mais isso. Estava morto. Provavelmente aguardando 
remoo para o necrotrio.
     Magr tomou flego e percebeu que estava agora sem a vassoura. Como iria sair disfarando, logo da porta ao lado de onde estavam de guarda os dois gorilas?
     - Desculpe, senhor cadavr, mas, agora, acho que o senhor no se importa, no ?  para uma boa causa...
     Com cuidado, tirou os lenis da cama do falecido, fez uma trouxa, usando tambm os travesseiros e as toalhas, tomou flego e abriu a porta.
     Os dois gorilas nem desconfiaram daquela faxineira que, do quarto ao lado, saa carregando uma trouxa de roupas sujas.
     
     ***
     
     Crnio veio andando normalmente, pelo lado do hospital, at chegar  viela. Depois, entrou rapidamente, colocando-se meio na sombra, ao lado de um monte de 
caixas de papelo.
     Dentro de uma delas, o ano encolheu-se o mais que pde.
     
     ***
     
     Magr desceu as escadas, carregando a trouxa de roupas, e chegou ao subsolo, onde tinha conseguido o uniforme de faxineira.
     No fundo, havia uma porta. Pelo seu senso de orientao, Magri percebeu que aquela porta dava para os fundos do hospital. "timo!"
     
     ***
     
     Cal encostou-se displicentemente a um poste em frente  viela.
     Nesse momento, os dois homens de terno aproximavam-se pela rua lateral, em direo  mesma viela.
     
     ***
     
     Magr saiu sorrateiramente pela porta e olhou.
     A cabea de Crnio aparecia ao lado de uma pilha de caixas de papelo.
     O amigo fez um gesto com a cabea.
     Tudo estava bem.
     Mas, nesse momento, dois assobios curtos, fortssimos, foram ouvidos.
     Os dois homens, j entrando na viela, deram apenas uma olhada para trs. No viram nada de mais. No devia ser nada de mais.
     
     ***
     
     Sem perder um segundo, Magr mergulhou com Crnio no meio das caixas de papelo.
     Quando os dois homens chegaram bem perto das caixas, no era possvel perceber nada.
     Crnio e Magr encolheram-se.
     Apenas uma folha grossa de papelo sujo separava os dois Karas do ano.
     
     ***
     
     Os homens conversavam. Parecia ser sobre futebol.
     Olharam em volta. Quando viram que no havia ningum  vista, abriram o zper da cala e aliviaram-se tranqilamente.
     Os dois Karas ouviram o rudo de duas "torneirinhas" regando a parede do hospital. Crnio olhou para Magr. A menina sorria. A situao era mesmo engraada, 
depois de tanta tenso.
     Magr estava suada, excitada, depois de uma aventura to incrvel.
     O rapaz continuava olhando para a menina. Ele tinha acompanhado a loucura de Magr, ao atravessar quase toda a fachada do hospital, a quinze metros do cho. 
Seu olhar era de verdadeira adorao. De admirao. De um amor intenso, imenso, eterno...
     
     ***
     
     Os homens, depois de urinarem, encostaram-se na parede e acenderam cigarros.
     - Est um calor danado na frente do hospital... Vamos dar um tempo. Aqui  bem mais fresco. Ningum vai aparecer por l, nos prximos dez minutos...
     
     ***
     
     Encolhidos no meio das caixas, Crnio e Magr no podiam fazer qualquer rudo.
     Estavam juntos, colados. Protetoramente, o brao de Crnio enlaava Magr.
     Seus rostos estavam quase colados. Seus hlitos se misturavam. Respiravam o mesmo ar.
     No era possvel falar, mas era perfeitamente permitido pensar o que se quisesse. E os dois bebiam-se, olhavam-se, aspiravam-se, ambos felizes pelo imprevisto 
que os jogara nos braos um do outro.
     "Magr... minha Magr..."
     "Crnio... meu... por um momento, ao menos, voc  meu..."
     Os olhinhos de Magr fecharam-se. Os lbios de Crnio aproximavam-se, midos, ansiosos...
     O corpo da menina relaxou-se nos braos sonhados de Crnio. Aquela verdadeira fortaleza de jovem mulher, que fora capaz de uma proeza to incrvel, como a que 
acabara de realizar, estava agora lnguida, entregue, mole e frgil como uma gatinha.
     "Por um momento, pelo menos... ah, eu quero este momento; pelo menos..."
     Delicados, os lbios daqueles dois adolescentes colaram-se, intensamente, apaixonadamente...
     Separado apenas por uma folha de papelo, mais mudo do que os dois, o ano ouviu sussurros. E, se aquela carantonha horrenda pudesse sorrir, era o que o ano 
faria...
     - Eu te amo, Magr. .. desesperadamente...
     - Eu te amo, meu querido... eu sempre te amei... Dessa vez o beijo foi ardente, agarrado, mgico, total...
     

     
     
     
    16. ESSES MALDITOS NO PERDEM TEMPO!
     
     Mal Andrade e Miguel viram os dois homens voltarem da viela e colocarem-se novamente junto ao carro escuro, o detetive ligou a ignio e deslizou at uma rua 
paralela ao quarteiro do hospital, onde o encontro de todos tinha sido marcado.
     Da viela, Magr e Crnio saram rapidamente. Cal os esperava. Correram para a rua combinada.
     Apressados, nenhum dos trs olhou para trs.
     E nenhum deles viu uma figurinha disforme, torta, saindo da viela atrs deles.
     Como uma aranha, feia, assustadora...
     Quando chegaram no fusquinha, o rosto de Magr estava vermelho, em brasa. Ela pediu excitada:
     - Por favor, rode, Andrade. Rode a esmo por a. Vocs no imaginam o que eu descobri...
     Em marcha lenta, Andrade procurou ruas de pouco movimento.
     - Dona Iolanda  prisioneira daquele hospital. No est em coma coisa nenhuma! O ferimento dela  superficial. Um corte queimado de bala sob a axila, perto 
do seio esquerdo.
     - Mas ela no perdeu os sentidos, quando foi ferida, l no aeroporto?
     - Deve ter desmaiado apenas pela dor e pelo susto, Cal. Mas o maldito Doutor Q.I. no quer que ela fale. Esto mantendo dona Iolanda dopada, semi-anestesiada, 
inconsciente, com dois goriles guardando a porta do quarto. Eu dei um jeito de jogar fora o anestsico que estava ligado  veia dela e coloquei soro fisiolgico 
no lugar.
     - Boa, Magr!
     - Eu no sou mdica, mas qualquer pessoa sabe que soro fisiolgico no faz mal a ningum. S que a gente no pode perder tempo. Logo que eles descobrirem que 
a tal "menininha" grvida desapareceu, vo desconfiar que alguma coisa anormal est acontecendo. E eles no so de brincadeira. Precisamos agir depressa!
     - Isso  comigo! - encerrou Andrade. - No posso invadir o hospital sem uma ordem judicial. Mas posso alegar que dona Iolanda  uma testemunha importante no 
caso do seqestro do doutor Bartholomew Flanagan e que precisa de proteo policial.
     Pelo radiotransmissor do carro, ligou para a central e pediu uma viatura, urgente.
     - Vou deixar dois guardas o tempo todo na porta do quarto da professora. Os bandidos no vo poder fazer mais nada contra ela. S que eu no vou esperar at 
a chegada da viatura. Magr e Crnio, vocs j fizeram muito, por hoje. Fiquem aqui no carro, de olho na sada do hospital. Cal e Miguel, venham comigo!
     Os trs saram apressados.
     Nem os dois homens de terno, nem o carro escuro estavam mais em frente ao hospital.
     
     ***
     
     Os trs entraram no saguo.
     Um mdico discutia com a recepcionista. Ao ver o gordo "pai", que h pouco tempo entrara com a filha grvida, a recepcionista ficou sem jeito:
     - Oh,  o senhor? Desculpe, mas a sua filha desapareceu. No foi culpa nossa, porque...
     O detetive interrompeu-a com um gesto e mostrou sua identificao de policial.
     - Sou o detetive Andrade. Preciso garantir a segurana de uma paciente, que  testemunha-chave de um caso policial.
     - Sua filha? - a recepcionista estava desorientada. - Mas ela desapareceu. Como  que...
     - No  a minha filha.  dona Iolanda Negri.
     - Desculpe, mas o senhor no pode interferir no trat... - comeou a falar o mdico.
     - No vou interferir em nada. S quero garantir a proteo dessa testemunha...
     
     ***
     
     Magr e Crnio, ansiosos, estavam sozinhos no fusca, aguardando os acontecimentos.
     Sozinhos... Magr olhou para o garoto como se olhasse o mar e procurasse enxergar os peixes que nadam nas profundidades abissais.
     O rapaz aproximou-se dela. 
     - Oh, Magr...
     Com delicadeza, Magr encostou a mo no peito do rapaz, detendo-o.
     - Crnio, precisamos conversar. . .
     
     ***
     
     Acompanhados pelo mdico, Andrade e os dois Karas pegaram o elevador para o quinto andar.
     Apressado, Miguel passou em frente aos outros. 
     - Onde  o quarto dela?
     - O quinhentos e doze...
     O comandante dos Karas correu para l.
     Em frente ao quarto da UTI, no havia mais nenhum gorila de guarda.
     Abriu a porta.
     Dentro do quinhentos e doze, s havia uma cama vazia.
     
     ***
     
     Depois da conversa, Crnio tinha uma expresso distante, como se no estivesse ali.
     Os dois nada mais falavam.
     Nesse momento, Crnio apontou:
     - Olhe, Magr! Acho que esto nos espionando! 
     - Onde?
     - J sumiu. Que coisa horrvel! 
     - Horrvel? O que  que voc viu?
     - Voc no vai acreditar, Magr. Era um ano horrendo! 
     - Um ano?!
     
     ***
     
     Miguel e Cal corriam para o carro.
     - Magr! Crnio! Vocs no imaginam! Dona Iolanda desapareceu!
     Crnio deu um soco no painel do carro:
     - Malditos! Esses malditos no perdem tempo!
     

     
     
     
    17. NA PISRA DO DOUROR Q.I.
     
     Andrade ficou no hospital, comandando as investigaes. Estava furioso, procurando pistas, interrogando todos os funcionrios, enfermeiras e corpo mdico. De 
que modo uma paciente poderia desaparecer assim, durante apenas os poucos minutos que Magr levara para contar o que tinha descoberto no hospital?
     - Para o esconderijo, Karas! - decidiu Miguel, quando ficaram sozinhos. - Vamos em txis separados. No quero que ningum no Elite nos veja chegando juntos.
     Magr, exausta, com o vestido sujo de arrastar-se pelas paredes do hospital, deu uma rpida passada em casa para um banho e roupas limpas.
     
     ***
     
     Numa esquina, na periferia da cidade, uma mulher esperava que um orelho fosse desocupado. Tinha de ligar para o marido e estava com pressa.
     Quando viu quem estava ao telefone pblico, fez uma expresso de nojo:
     "Nossa! Que ano horroroso!"
     
     ***
     
     Reunidos no esconderijo secreto, os Karas estavam desolados. 
     - Nada! No conseguimos nada! - lamentava-se Cal. - E ainda perdemos dona Iolanda...
     Magr sentia-se ainda pior do que os outros.
     - A culpa  minha, Crnio. Se eu no tivesse me metido l no quarto dela e trocado os soros, ela ainda estaria l. E Andrade poderia proteg-la...
     - Ora, Magr... O que  isso? Se voc no tivesse entrado l, ns nem saberamos que dona Iolanda precisava de proteo especial. Voc no tem culpa nenhuma. 
Ns j sabemos que..
     - O que sabemos  uma verdadeira baguna! - reclamou Cal. - Cada coisa que acontece! Tenho certeza que aqueles dois que ficavam o tempo todo de p, ao lado 
daquele carro escuro, so da quadrilha.
     - Pareciam at sentinelas! - reforou Miguel. - E tem tambm o tal ano... - lembrou Crnio. 
     - Que ano? - perguntou Miguel.
     - Um sujeitinho horroroso, que eu vi de relance, perto do hospital. Sinistro, suspeito demais. Desapareceu de repente, como se no quisesse ser visto. No sei 
por qu, mas garanto que ele  o chefe de todo o esquema...
     - Ora, Crnio! Quer dizer que o Doutor Q.I. encolheu? brincou Magr. - O chefe de todo o esquema s pode ser o Doutor Q.I. !
     Cal no queria saber de anes. Ali faltava um dos Karas e ele no podia conformar-se com isso:
     - E Chumbinho, ento? At agora no encontramos nem um trao de Chumbinho...
     Miguel, srio, interrompeu:
     - No temos tempo para choradeiras, Karas. Cabea erguida. Conseguimos alguma coisa sim. E vamos nos agarrar ao que conseguimos. Magr, repita o que ouviu de 
dona Iolanda.
     - Ela disse claramente: "Ele apontou para mim. Ele mandou atirar em mim. No aeroporto..."
     - Ele! - por um triz, Cal quase levantou a voz, esquecendo-se da segurana do esconderijo secreto. - Quem  esse "ele"? Ser que o Doutor Q.I. estava no aeroporto 
e mandou atirar na professora? Mas por que ele faria isso?
     - No vamos perder o fio da meada, Karas - retomou Miguel. - Vamos voltar ao que informou Andrade. Tem uma coisa que me intriga. Ele disse que, por mais que 
procurassem, no foi possvel descobrir como o Doutor Q.I. fugiu da Penitenciria de Segurana Mxima. S sabem que ele no est l. Isso no  estranho? Aquela 
penitenciria tem esquemas contra fugas to sofisticados que, se algum conseguisse neutraliz-los, na certa ficariam traos bvios dessa fuga, como portas serradas, 
fios cortados e coisas assim!
     Cal seguia o raciocnio de Miguel:
     - Lembro perfeitamente das palavras de Andrade, repetindo o diretor da penitenciria: "Daquela priso s se sai pela porta da frente, com um mandado de soltura". 
Como nenhum dos homens que est l poder ser solto antes de mais ou menos cinqenta anos, a nica maneira de sair  atravs de um ofcio de transferncia para outra 
penitenciria.
     - Bem, pelo menos podemos estar certos de que o Doutor Q.I. nem foi solto nem transferido - disse Magr.
     Crnio sorriu:
     - Assim, Karas, o problema fica mais fcil... 
     - Mais fcil? Como?
     - At agora s temos pistas mostrando que o Doutor Q.I. no fugiu da penitenciria, no ? Ento, se a lgica vale alguma coisa, a concluso  uma s.
     - Qual?
     - O Doutor Q.I. no fugiu da penitenciria, ora essa! 
     Os outros Karas entreolharam-se.
     - Crnio, ficou maluco? O que voc quer dizer com isso? 
     - Acho que j entendi aonde Crnio quer chegar: o Doutor Q.I. est fazendo a gente de idiotas - concluiu Miguel. - No sei como, mas est. No adianta especular 
agora. Precisamos novamente do Andrade. Ele vai ter de dar um jeito de nos levar at a Penitenciria Estadual de Segurana Mxima!
     - Qual  o seu plano, Miguel?
     -  possvel que naquela penitenciria haja algum prisioneiro que, por influncia do Doutor Q.I., conhea a nossa cara.
     - E da?
     - Da, Cal, precisamos dos seus servios de maquilagem.. .
     
     ***
     
     O furor informativo da imprensa foi realimentado pelo desaparecimento de dona Iolanda. Agora, eram trs os desaparecidos.
     - Um bilho de dlares! - berravam as manchetes. - Os bandidos querem um bilho de dlares para devolver a Droga do Amor e o doutor Bartholomew Flanagan. E 
quanto aos outros dois? Ser que os seqestradores tambm vo pedir resgate pela professora ferida e pelo menino Chumbinho? Ou vo simplesmente livrar-se deles? 
A polcia, at agora, nada conseguiu apurar de concreto...
     
     ***
     
     Magr estava pronta para a visita  Penitenciria de Segurana Mxima. Numa mochila, colocou o vestido velho e os enchimentos que Cal pedira, para completar 
o disfarce que ele planejava para ela.
     Ao mexer no armrio, l estava a bolsa de dona Iolanda, que ela trouxera para casa, no dia do seqestro do cientista americano. "A bolsa...", pensava a menina. 
"Ser que..."
     Uma idia comeava a nascer. Ainda no estava clara mas. . . Magr levou a bolsa na mochila.
     
     ***
     
     Na direo do fusquinha, novamente lotado pelos quatro adolescentes, Andrade estava quase fora de si:
     - Levar esses garotos  Penitenciria de Segurana Mxima! No sei onde eu ando com a cabea para aceitar as maluquices de vocs...
     Um carro da polcia os acompanhava, trazendo tambm os dois agentes do FBI, o doutor Hector Morales e a intrprete. O presidente para a Amrica Latina da Drug 
Enforcement tinha sido chamado a participar daquela fase da investigao. Ele era o nico que poderia ajudar com os detalhes tcnicos da Droga do Amor e com o conhecimento 
que possua do doutor Bartholomew Flanagan.
     No fusquinha, os quatro Karas estavam irreconhecveis. Com pequenos toques, Cal tinha conseguido alterar a aparncia de todos eles. Cores de cabelos mudadas, 
lentes de contato coloridas, um bigodinho ralo, uns culos, um bon, um enchimento aqui e ali, tudo isso transformara os Karas em um grupo irreconhecvel para quem 
no fosse ntimo de nenhum deles.
     - Ainda no entendi por que vocs querem se apresentar como parentes de detentos! O que isso tem a ver com o caso?
     - Confie em ns, Andrade, por favor. Jovens como a gente do menos na vista. Se voc levasse policiais disfarados, para fazer esse servio, na certa os prisioneiros 
desconfiariam.
     - Mas que servio  esse, afinal de contas`?
     - Crnio tem um palpite que as informaes que precisamos esto com alguns prisioneiros - esclareceu Miguel. Precisamos falar com eles no-oficialmente. Precisamos 
saber o que eles sabem. Se eles nos aceitarern como parentes distantes, de quem eles no se lembram por que esto na cadeia h anos, talvez a gente descubra alguma 
coisa. Confie na gente, Andrade.
     O detetive calou-se. Realmente nunca tinha havido uma ocasio que ele lembrasse de ter se arrependido de confiar naqueles garotos.
     
     ***
     
     O diretor da Penitenciria Estadual de Segurana Mxima estranhou a visita do detetive Andrade acompanhado por aqueles quatro adolescentes, pelos trs gringos 
e pela intrprete, mas nada disse. Ele sentia-se sem jeito por causa da fuga de um dos mais perigosos sentenciados que estavam sob sua custdia. Alm disso, a autoridade 
do detetive, naquele caso, no era para ser discutida.
     - What the hell are we doing here, Doctor Morales? perguntava o agente Patrick Lockwood. - What do we intend to find in this prison? The suspect has escaped! 
We must look for him somewhere else. We're loosing precious time!
     - Don't worry, agent Lockwood - acalmava o doutor Morales. - Detective Andrade is a fine policeman, our consul said. He knows what he's doing. We're here only 
to watch. Let's wait and see what he intends to do...
     - Vhat? Sht? - perguntava Iri Mikhailevich para a intrprete. - Sht on skazal? Me not underrrstand...
     O que a pobre da intrprete poderia fazer? Ela s falava ingls e portugus. Poderia traduzir uma lngua para a outra e vice-versa. O que fazer, j que o russo 
no entendia nenhuma das duas?
     Quando o detetive Andrade quis saber o que conversavam Lockwood e Morales, a intrprete sentiu-se mais til:
     - O agente Lockwood perguntou o que estamos fazendo aqui. E o doutor Morales elogiou o senhor. Disse que o senhor  um timo detetive, e que o agente Lockwood 
pode confiar...
     Andrade estava gostando daquele doutor Hector Morales. Pelo jeito, o presidente da Drug Enforcement sabia reconhecer o valor de um policial como ele.
     O diretor da penitenciria repetia com todos os detalhes as circunstncias da fuga do Doutor Q.I.:
     - No encontramos nenhuma pista, mesmo. S o que sabemos  que, na chamada da manh, h trs dias, o prisioneiro no apareceu. Simplesmente sumiu!
     O detetive perguntou:
     - Diretor, o senhor me dsse que a nica maneira de um sentenciado sair daqui  com um alvar de um juiz, libertando-o ou transferindo-o para outro presdio, 
no ?
     - Isso mesmo, detetive Andrade. Alguns prisioneiros, depois de longo tempo de pena, quando apresentam timo comportamento, s vezes conseguem transferncia 
para outra penitenciria. ..
     - Outra penitenciria? - sussurrou Crnio para Cal. Uma de onde  mais fcil fugir?
     - Como? - perguntou o diretor. 
     - Nada, desculpe - disse Crnio.
     - Desculpa! Izvintie! - sorriu o russo, que j andava pescando alguma coisa de portugus. - Me underrstand! l panimiu! Me intnd!
     Andrade continuou:
     - Desde a fuga, ou o desaparecimento do Doutor Q.I., quantos prisioneiros saram daqui com alvars desse tipo?
     - Nenhum, detetive. Quando soubemos da fuga do prisioneiro, mandei suspender o cumprimento dos quatro alvars de transferncia que tnhamos recebido...
     - Quatro alvars, senhor diretor? Pois  isso mesmo que eu peo que o senhor faa. Gostaria que o senhor anunciasse, a esses quatro prisioneiros, que foi permitido, 
excepcionalmente, que eles recebessem visitas, antes de serem transferidos...
     - Visitas? Que visitas?
     - Esses quatro jovens aqui. Eu gostaria que eles fossem anunciados como visitas a esses quatro detentos. Um de cada vez, por favor.. .
     O diretor estava achando aquilo muito irregular. Mas ele j andava recebendo presses de todos os lados, at do Ministrio das Relaes Exteriores, para ajudar 
em tudo que tivesse qualquer ligao com o seqestro do doutor Bartholomew Flanagan e com o roubo da Droga do Amor.
     - Como quiser, detetive Andrade.
     
     ***
     
     Alm dos limites da cidade, os olhos de dona Iolanda examinavam cada canto do pequeno galpo onde se encontrava. Olhava apenas, pois sua boca estava amordaada 
e seus pulsos amarrados atrs de uma cadeira.
     Ainda sentia tontura da anestesia forada, e seu ferimento doa um pouco. Estava lcida. Era uma mulher valente. Solteira, sem parentes, sua vida eram seus 
alunos. Por eles, ela resistia.
     A porta do galpo abriu-se lentamente. Dona Iolanda voltou a cabea.
     Nesse momento, se no estivesse amordaada, a professora teria dado o maior berro de sua vida.
     Recortada contra a luz que entrava pela porta aberta, estava uma viso de pesadelo: o ano mais medonho que a imaginao de dona Iolanda poderia conceber!
     A lmina de um canivete brilhou ao abrir-se.
     

     
     
     
    18. QUATRO SCULOS DE CADEIA
     
     O diretor da Penitenciria Estadual de Segurana Mxima levou os quatro Karas e o detetive Andrade para uma sala escura. Em uma das paredes, um vidro grande 
permitia que se visse perfeitamente outra sala, muito bem iluminada, com uma mesa e duas cadeiras. Era um vidro, quando visto da sala escura; mas, quando visto da 
sala iluminada, aquilo era apenas um grande espelho.
     - Deste lado, podemos ver tudo o que acontece do lado de l - explicou o diretor, apontando para a sala iluminada que se via atravs do vidro. - Mas, do outro 
lado, o prisioneiro s ver um espelho. Podemos tambm ouvir tudo, pois a sala tem microfones embutidos.
     - J conheo tudo isso, diretor... - resmungou Andrade, de mau humor.
     - Eta zdiss ani mtchait arestovanej? - perguntou Iri Mikhailevich. Mas, como foi em russo, no houve resposta porque ningum entendeu nada. O pobre Iri 
sentia-se perdido...
     - Muito bem, detetive - continuou o diretor. - J mandei chamar os quatro sentenciados que aguardam transferncia daqui. Juntos, eles ainda tm a cumprir mais 
de quatro sculos de cadeia. Pelo jeito, a periculosidade deles diminuiu muito. Apresentam bom comportamento h anos. Por isso esto sendo transferidos para outras 
penitencirias. A junta de conselheiros decidiu que eles j podem cumprir suas penas em regime menos rgido do que o daqui.
     - Vamos logo, diretor, vamos logo! - apressou Andrade. 
     - Certo, detetive Andrade. Separadamente, mandei avisar a cada um dos prisioneiros que um sobrinho veio visit-lo. Qual de vocs vai ser o primeiro "sobrinho"?
     - Eu - apresentou-se Miguel.
     O diretor abriu a porta de comunicao entre as duas salas e Miguel ficou na sala iluminada, sozinho, sentado em uma das cadeiras.
     O diretor deu uma ordem pelo telefone.
     
     ***
     
     A porta da sala iluminada abriu-se e um negro enorme entrou algemado, com dois guardas como escolta.
     Miguel, meio sem jeito, cumprimentou: 
     - Ol, tio...
     O prisioneiro nem se sentou na cadeira que um dos guardas lhe apontava. Parou e olhou espantado para o rapazinho.
     - Tio? Que negcio  esse de tio? Como  que eu posso ser seu tio? Que histria  essa? Isso  uma armao? Uma armadilha para pegar aqui o pssaro preto? Quem 
te mandou, moleque? Foi o Nego Co? Pois pode dizer pra ele que eu agora estou fora. Estou fora, est me ouvindo? Guarda, me leva daqui! Me leva daqui! No quero 
mais negcios com o Nego Co! Me leva daqui!
     
     ***
     
     Na sala escura, depois que o prisioneiro foi levado pelos guardas, o diretor no estava nem um pouco animado.
     - Isso no vai dar certo. O que o senhor pretende, detetive Andrade?
     - No se preocupe. Espere e ver. Mande entrar o prximo prisioneiro. O senhor j vai ver. . .
     Andrade, porm, no tinha a menor idia de onde aquilo tudo ia chegar.
     A intrprete parecia cada vez mais excitada ao traduzir tudo o que ouvia para o agente Lockwood.
     O agente Mikhailevich tentava pescar aqui e ali alguma coisa que conseguisse entender.
     
     ***
     
     Magr foi a segunda a ocupar a cadeira de visitante. E o segundo sentenciado a comparecer algemado era um sujeito baixinho, de cara encovada.
     - Voc  que  a minha sobrinha, ? - perguntou o homem, com cinismo. - No me diga!
     - Sou sim... no se lembra de mim, tio?
     - Posso me lembrar, sobrinha. Mas voc precisa me ajudar. Eu estou na cadeia h tanto tempo que nem fiquei sabendo que a minha velha teve mais filhos. Afinal, 
eu era filho nico! Da parte do meu pai no pode ser, porque eu nunca soube quem era ele. Mas o impressionante, sobrinha,  que a minha velha j morreu h vinte 
e cinco anos. Como  que ela, depois de morta, conseguiu ter mais filhos, para eu arranjar uma sobrinha?
     
     ***
     
     Do outro lado do espelho, na sala escura, o diretor informou: 
     - . . . com esse eu sabia que ia ser difcil.  o rei do cinismo.
     Acho que foi isso que o ajudou a sobreviver  cadeia at agora...
     
     ***
     
     Cal j estava sentado na sala iluminada, quando entrou o terceiro prisioneiro.
     Ao ser apresentado ao seu "sobrinho", o homem imobilizou-se. Sua expresso nada demonstrava.
     Cal tentou ajudar:
     - Oi, tio... o senhor no se lembra de mim, eu sei. Mas a gente soube que o senhor afinal conseguiu transferncia para outro lugar, melhor do que este e...
     - O que  isso? - perguntou o sentenciado, com uma voz muito baixa.
     - Isso o qu? - devolveu Cal, com cara de ingnuo.
     -  uma arapuca dos tiras, eu j percebi. Vocs querem me sujar, querem me impedir de sair daqui! Mas no me pegam, no! Eu luto h dezessete anos para conseguir 
esse alvar de transferncia! Vocs no me pegam! Vo ter de cumprir direitinho o meu alvar. Vocs vo ter de me tirar daqui! Vocs no me pegam! No me pegam!
     
     ***
     
     Na sala escura, assistindo e ouvindo tudo, nem o diretor, nem Andrade conseguiam perceber onde aquela bobagem ia dar. O que os garotos esperavam conseguir com 
aquelas entrevistas idiotas? Nenhuma dava certo! Nem uma pergunta at agora eles tinham conseguido fazer para os prisioneiros!
     Andrade estava de cabea baixa, tentando imaginar uma desculpa para o diretor da penitenciria. Uma desculpa que pudesse amenizar a vergonha que ele estava 
passando por sugerir uma encenao to sem sentido, to intil...
     - Sua vez, Crnio - disse Miguel.
     
     ***
     
     O quarto prisioneiro entrou na sala iluminada, andando com dificuldade.
     Era um velho. Magro como uma sombra. Devia estar na cadeia h um tempo, mais tempo talvez do que a prpria idade dos pais de Crnio.
     
     ***
     
     Na sala escura, vendo o pobre sentenciado do outro lado do vidro, o diretor comentou:
     - Esse j est velho e doente. Vamos tir-lo daqui, mas acho que ele no vai sobreviver muito mais tempo...
     - Shhh... - fez Miguel. - Vamos ouvir o que acontece.
     
     ***
     
     Crnio levantava-se da cadeira, com um ar tmido. 
     - Boa tarde, tio.. .
     O velho andou com esforo at a cadeira. Sentou-se, apertando os olhos. Como enxergava mal, no conseguia distinguir a fisionomia de quem estava a sua frente.
     Tossiu. 
     - Ahn? Que... quem  voc?
     - No se lembra, no , tio?  que quando eu nasci voc j estava preso... Sou seu sobrinho-neto. Vim ver se o senhor precisa de alguma coisa, antes da transferncia...
     - Oh, obrigado... - disse o velho, meio alheado. - Obrigado... que bom que voc veio!
     - Sua irm Benevinda no pde vir, tio. Mas eu estou aqui. Lembra-se dela, tio? Ela escreveu para o senhor, lembra? Ela sempre escreve para o senhor. Ela disse 
que tem lhe mandado fotos das crianas. Ela disse que mandou at a minha fotografia...
     O velho sorriu de leve, como se uma luz lhe iluminasse a lembrana:
     - Ah, sim,  claro. Agora me lembro. Foi muito bom voc ter vindo me visitar, sobrinho. Muito bom mesmo...
     - O senhor se lembra de mim, ento? Sou o Leovegildo, neto da sua irm Benevinda. Sou filho da Clovildes, filha da v Benevinda...
     - Ora,  claro! Da Clovildes, filha da Benevinda...
     
     ***
     
     Nesse momento, o susto do diretor e de Andrade s no foi maior do que o do prisioneiro:
     Crnio levantava-se e estendia a mo para o velho, com um sorriso triunfante!
     - Doutor Q.I., eu presumo!
     
     ***
     
     O velho levantou-se de repente, abandonando o porte encurvado. Parecia vinte anos mais moo:
     - O qu?!
     Com um gesto rpido, Crnio estendeu a mo para o velho e agarrou-lhe o rosto. Algemado, o homem deu um tranco para trs. 
     Na mo do garoto ficou um pedao arrancado da cara do velho, como se pele e carne se desgrudassem da caveira.
     Mas no era carne nem pele. Era um pedao de uma mscara plstica!
     - hn? Me largue!
     Recuando, Crnio arrancou o bigode nascente que Cal havia cuidadosamente lhe colado sob o nariz, tirou o velho palet com enchimentos, o bon, e sorriu:
     - Lembra-se de mim, Doutor Q.I.? 
     - Voc! Maldito!
     Ainda com pedaos da mscara colados na cara, o aspecto do homem era assustador. Mas sua expresso de dio era pior ainda. 
     - Maldito!
     - Que decepo, Doutor Q.I.! - ria-se Crnio. - Eu acabei de inventar esses nomes todos! E o senhor caiu como um patinho... se fosse quem est represen-tando 
ser, o senhor tinha de estranhar o que eu estava dizendo, tinha de negar conhecer qualquer Leovegildo, qualquer Benevinda e qualquer Clovildes!
     Da porta de comunicao com a sala escura ao lado, surgiram Magr, Miguel, Cal, o diretor, Andrade, a intrprete e os dois agentes do FBI, enquanto os dois 
guardas que haviam trazido o velho tratavam de segur-lo pelos braos.
     - Vocs!! Ah, no! Vocs todos de novo! No! No! 
     Enquanto os guardas o levavam, podia-se ainda ouvir os gritos do Doutor Q.I.:
     - Eu vou conseguir sair daqui! Vocs no perdem por esperar! Eu ainda vou me vingar! Vou me vingar!
     

     
     
     
    19. HORROR!
     
     Foi um pandemnio na Penitenciria de Segurana Mxima. O diretor estava satisfeito pela soluo da fuga do Doutor Q.I., que afinal nunca acontecera. Mas estava 
tambm envergonhado pelo problema ter sido resolvido pelos garotos. Sorriu, desculpou-se algumas vezes e saiu, tomando providncias para esclarecer os detalhes que 
faltavam.
     Andrade, Hector Morales, Patrick Lockwood, Iri Mikhailevich, a intrprete e os quatro Karas foram levados para o refeitrio dos guardas, enquanto os carcereiros 
e funcionrios da priso inteira corriam de um lado para o outro no cumprimento das ordens do diretor.
     Vieram onze sanduches "americanos" e nove sucos de laranja, porque Andrade pedira trs sanduches.
     - Uma brilhante encenao, detetive Andrade! - cumprimentava o doutor Hector Morales. - Uma brilhante concluso!
     - No to brilhante assim, doutor Morales - contradisse Miguel. - O que ns conseguimos? Desmascaramos o esquema de fuga do Doutor Q.I. E depois? Aonde isso 
nos leva? O que tem isso a ver com o seqestro do doutor Bartholomew Flanagan, do meu amigo Chumbinho e de dona Iolanda Negri? O que isso tem a ver com o roubo da 
Droga do Amor?
     - Ora, mas vocs solucionaram o caso! 
     Magr deu um sorriso amargo:
     - Soluo, doutor Morales? Que soluo ns encontramos? Tudo o que conseguimos foi eliminar nosso nico suspeito! Se o seqestro do doutor Bartholomew Flanagan 
e o roubo da Droga do Amor no foi um plano do Doutor Q.I., de quem foi ento?
     - E o Chumbinho, Magr? Voc est se esquecendo do Chumbinho?
     - No, Miguel.  claro que no! 
     Cal estava desanimadssimo. 
     - Ah, estamos na estaca zero!
     - Ora, rapaz! - sorriu Morales. - Vocs foram brilhantes!  claro que estamos na pista certa. Esse Doutor Q.I., de dentro da penitenciria,  a cabea que est 
comandando todo o esquema!  s vocs conseguirem que ele fale, e tudo estar resolvido! A maior prova do envolvimento dele  a assinatura "Q.I." no bilhete que 
foi deixado depois do seqestro do menino! 
     Magr estava nervosa:
     - Ah, essa assinatura no tem nada a ver!
     -  claro que tem a ver, menina! - discordou o doutor Morales. - Apertem o homem. Ele vai confessar!
     Andrade, s voltas com seus sanduches, balanou a cabea: 
     - Talvez, doutor Morales, mas eu no confiaria tanto numa confisso. Esse homem no falar nada. Por enquanto, s sabemos que ele tentou fugir. No temos nenhum 
indcio que o ligue com o caso da Droga do Amor, alm da assinatura no bilhete. Mas isso  muito pouco. Precisamos de provas mais concretas...
     Depois que a intrprete, de boca cheia, traduziu o que estava sendo dito, Patrick Lockwood deu seu palpite, sorrindo, e a mulher traduzu de volta:
     - O agente diz que vocs, policiais brasileiros, demonstraram grande capacidade de deduo. Ele diz que agora  s continuar na mesma linha de raciocnio.
     Hector Morales aproveitou a pergunta do agente e acrescentou a sua:
     - Por falar nisso, como  que vocs descobriram que esse Doutor Q.I. estava preparando um esquema de fuga to original? 
     Andrade apontou Crnio com a cabea.
     - Foi uma idia deste garoto aqui. ..
     Os olhares voltaram-se todos para Crnio, menos o do russo, que no estava entendendo nada. O rapaz explicou:
     - Bem, a pista principal era justamente a falta de indcios que demonstrassem como o Doutor Q.I. tinha consegudo fugir. Ele havia desaparecido simplesmente 
porque no estava mais entre os detentos, mas nada havia que caracterizasse uma fuga. Ora, nem mesmo ele, com as suas manhas, conseguiria evaporar como gua. E eu 
me coloquei no lugar dele. Se eu quisesse sair daqui, naturalmente tentaria a nica maneira possvel: conseguir ser transferido para uma penitenciria menos fechada, 
de onde, a sim, eu poderia tentar escapar com mais chances de sucesso.
     - Mas essa transferncia ainda poderia demorar uns vinte anos para um criminoso como o Doutor Q.I., mesmo que ele se comportasse como um anjinho... - observou 
Andrade.
     -  verdade. Como ento apressar a transferncia?  claro que s tomando o lugar de algum outro detento que estivesse para sair!
     Andrade no escondia o orgulho pelo raciocnio de Crnio, um dos seus garotos.
     - S mesmo a cabea do Doutor Q.I. para imaginar uma coisa dessas!
     Hector Morales brincou:
     - Como s a cabea do Doutor Q.I.? E este rapaz? No pensou exatamente a mesma coisa?
     Andrade acariciou os cabelos de Crnio:
     - Ah, meu querido menino! Ainda bem que voc est do meu lado!
     Crnio no estranhou quando Andrade deu-lhe um beijo estalado na bochecha. S no gostou muito porque o beijo estava sujo de mostarda...
     Iri Mikhailevich adorou aquela histria de beijo, porque beijo  coisa de russo:
     - Potseli! Potseli! Meh russkie otchen liubin tselavtsa! We russian like kisses vrry much!
     E pespegou o maior beijo no rosto surpreso de Patrick Lockwood.
     
     ***
     
     Um guarda veio cham-los no refeitrio. O diretor queria falar com eles.
     Quando aquele grupo de nove pessoas entrou na sala, o diretor estava sentado atrs de sua ampla mesa, com uma expresso horrorizada. Parecia ter acabado de 
ver um filme do Drcula.
     - Sentem-se, por favor. Obrigado, detetive Andrade, por ter nos ajudado a resolver esse problema.
     - s ordens, diretor...
     - Depois que o Doutor Q.I. foi desmascarado, os outros presos resolveram falar e no foi difcil levantar a histria toda... 
     - Ele se fez passar por um dos detentos que iam ser transferidos, no ? - adiantou o doutor Hector Morales. - Mas como conseguiu isso?  uma loucura! Parece 
impossvel...
     - Para qualquer sentenciado, talvez, mas no para o Doutor Q.I. Ele  o prisioneiro mais inteligente que eu jamais conheci. Se conseguisse ser transferido para 
uma priso com menor segurana, seus contatos externos tornariam muito mais fcil sua fuga. Principalmente se fugisse fazendo-se passar pelo velho e no com sua 
prpria identidade...
     - Tem razo. Em outra priso qualquer, ele acabaria arranjando um meio de escapar - concordou Andrade.
     - Com isso em mente, o Doutor Q.I. elaborou um plano ousadssimo. Os prisioneiros acabaram de contar que ele decidiu tomar o lugar do velho e fez um regime 
brutal, at tornar-se to magro como ele. Aos poucos, estudando o velho, aprendeu a andar como ele, a falar como ele, a ser o velho. Fabricou com plstico uma mscara 
perfeitamente adaptvel ao rosto e uma cabeleira. E o Doutor Q.I. transformou-se em uma cpia do velho...
     Andrade ainda estava comendo um sanduche que trouxera do refeitrio. Interrompeu a refeio e a fala do diretor:
     - Espere a, diretor. Mas esse plano tem uma falha. Vocs pensaram que ele tinha fugido porque faltava um prisioneiro na hora da chamada. Como isso aconteceu? 
O Doutor Q.I. tomou o lugar do velho, mas o nmero de prisioneiros continuou o mesmo. E o velho? Onde est o velho?
     A expresso de horror do diretor aumentava: 
     - O Doutor Q.I. assassinou o velho...
     Andrade fixava-se na falha que tinha descoberto.
     - Ah! Mas como ele conseguiu fazer sumir o cadver dentro de uma penitenciria como esta?
     Ao horror da expresso do diretor acrescentou-se o nojo: 
     - O maldito mandou esquartej-lo e...
     - E. . . ? O que ele fez com os pedaos?
     - Ele subornou os detentos que trabalham na cozinha dos prisoneros! Eles misturaram os pedaos na carne moda!!
     O sanduche voou das mos do detetive Andrade.
     Tapando desesperadamente a boca com as mos, o pobre detetive correu para o banheiro da diretoria da Penitenciria de Segurana Mxima.
     
     ***
     
     O diretor, preocupadssimo, falava atravs da porta do banheiro:
     - Detetve Andrade! No se assuste! O senhor s comeu sanduches de ovo frito, com presunto, queijo e alface! Os meninos e os outros tambm. No se preocupe, 
detetive!
     

     
     
     
    20. A VEZ DE MAGR
     
     Sentado no sof da diretoria da penitenciria, enxugando a boca com o leno, o detetive Andrade estava plido. O susto fora de amargar!
     A intrprete, de olhos vermelhos, tinha se acalmado um pouco, depois de tomar gua com acar.
     O agente Patrick Lockwood, enquanto Hector Morales traduzia para ele a causa de todo o tumulto, balanava a cabea e repetia:
     - My God! My God! It's awfull...
     Somente o russo no parecia chocado. S tinha entendido um pouquinho daquela histria toda. E esse pouquinho no era suficiente para que ele entendesse por 
que todo mundo estava to fora de si.
     Hector Morales perdera o ar de segurana absoluta. At seus cabelos no estavam mais irrepreensivelmente penteados, de tanto que ele passava a mo por eles, 
chocado com o plano macabro do Doutor Q.I.
     - Que horror! O velho foi comido pelos prisioneiros!
     - Demnio! - praguejava Andrade. - O Doutor Q.I.  o demnio! Nunca na minha vida de policial ouvi falar em uma barbaridade como essa!
     Miguel concordou:
     - S mesmo uma mente doentia como a do Doutor Q.I. poderia pedir resgate pela Droga do Amor. Somente um homem cruel como ele poderia querer ganhar um bilho 
de dlares especulando com a vida de milhes de seres humanos que agonizam em todo o mundo, vitimados pela praga do sculo!
     - At parece impossvel que ele possa ter liderado esse plano todo daqui de dentro, da penitenciria mais fechada do pas! - observou Cal. - S mesmo um criminoso 
com a inteligncia maligna dele poderia encontrar um meio de dirigir, daqui de dentro, uma operao como essa!
     Miguel no era de deixar que aquele choque perturbasse sua capacidade de ao:
     - Pessoal, no temos tempo a perder. Talvez a vida do doutor Bartholomew Flanagan no corra perigo imediato, pois os bandidos esperam ganhar dinheiro com ele. 
Mas, para que precisam manter dona Iolanda viva? Para que manter vivo o Chumbinho? O tempo est contra ns!
     As palavras de Miguel despertaram Andrade:
     - Muito bem, precisamos fazer com que esse monstro confesse onde esto o doutor Bartholomew Flanagan, dona Iolanda Negri, Chumbinho e as amostras da Droga do 
Amor. Senhor diretor, peo que traga o Doutor Q.I., agora, para a sala de interrogatrio. Cada minuto  precioso, daqui para a frente!
     
     ***
     
     O Doutor Q.I. entrou algemado na mesma sala onde fora desmascarado por Crnio. Parecia j estar refeito. Vestia um uniforme limpo e em seu rosto no havia mais 
sinais da mscara plstica. Tinha recuperado a frieza e a autoconfiana.
     Dez outras pessoas abarrotavam a sala. Mas tinha ficado decidido que somente Andrade faria as perguntas.
     - Muito bem, Doutor Q.I., j descobrimos todo o seu joguinho...
     Os msculos do rosto do prisioneiro no se moveram.
     - Mais algumas dcadas de condenao esperam o senhor pelo brbaro assassinato de um companheiro de priso, Doutor Q.I. No queira complicar mais as coisas 
para o seu lado. Queremos saber, j, onde esto o doutor Bartholomew Flanagan, dona Iolanda Negri, o menino Chumbinho e as amostras da Droga do Amor!
     As sobrancelhas do prisioneiro franziram-se.
     - No me venha dar uma de inocente, Doutor Q.I. Ns j descobrimos todo o seu joguinho. Pode comear a falar.
     - A falar o qu? - perguntou o homem, com um meio sorriso. 
     - Voc sabe muito bem do que eu estou falando, miservel! 
     - Da Droga do Amor? Dos seqestros?  claro que j ouvi falar disso. At aqui dentro d para se saber o que se passa l fora. Mas por que o senhor pensa que 
eu tenho alguma coisa a ver com tudo isso?
     - Ora, no me venha bancar o inocente! O senhor no conseguiu conter sua vaidade criminosa, no ? E assinou o bilhete do seqestro de Chumbinho!
     - Eu fiz o qu?
     - O bilhete que a empregada encontrou ao lado da bicicleta de Chumbinho estava assinado "Q.I.". Voc sabe muito bem disso! 
     - No. Isso eu no sabia. E tambm no sabia que o senhor, detetive Andrade, seria to burro a ponto de imaginar que eu assinaria um bilhete de seqestro. O 
senhor me subestima, detetive Andrade. O senhor est acostumado a prender criminosos analfabetos e ignorantes e at hoje no pde compreender a profundidade da minha 
mente...
     - Ora, seu...
     -  do meu raciocnio que o senhor precisa? Pois estou s suas ordens. No gosto de criminosos que usam meu nome.
     A segurana daquele criminoso era impressionante. Sua personalidade era rara, dominadora.
     - Vocs esto farejando a pista errada! - declarou com ironia o Doutor Q.I. - O seqestro desse cientista no  coisa planejada aqui. Vocs no percebem? Como 
eu sei? Eu no sei. Eu penso.
     O olhar de Magr, durante todo aquele interrogatrio, permanecia meio distante. A menina pensava. Colocada no fundo da sala, fora dos olhares dos outros, abriu 
a mochila e, discretamente, examinou o contedo da bolsa de dona Iolanda. Fechou-a novamente.
     Um silncio constrangido tomava conta da sala de interrogatrio.
     Quem o rompeu foi Magr. 
     - Andrade, posso falar?
     O gordo detetive, meio zonzo, sem saber como sobrepr-se  forte personalidade do Doutor Q.I., voltou a cabea para a menina: 
     - Claro, Magr.
     - Peo que o Doutor Q.I. seja dispensado. 
     - Como?
     - Por favor, Andrade. Confie em mim. Por favor!
     
     ***
     
     Depois que o prisioneiro foi levado pelos guardas, Magr levantou-se:
     - O Doutor Q.I. tem razo. Estamos na pista errada. 
     O diretor sorriu, com condescendncia:
     - Ora, desculpe, detetive Andrade, mas no vamos ficar aqui perdendo tempo com opinies de crianas...
     O olhar de Magr fuzilou o diretor, e Andrade veio em seu socorro.
     - O senhor  que deve me desculpar, diretor, mas eu estou no comando das investigaes deste caso. Peo sua pacincia. O senhor j viu do que estes meninos 
so capazes. Vamos ouvir o que Magr tem a dizer.
     Dessa vez a segurana da personalidade do Doutor Q.I. estava sendo substituda pela fora de Magr. Era de impressionar. 
     - Andrade, deixe-me ver de novo as fotos do doutor
     Bartholomew Flanagan e o resumo de sua biografia, por favor. Andrade tirou o envelope do bolso.
     - Aqui esto, Magr.
     A menina folheou as fotos e passou os olhos pelo contedo da biografia.
     - Vou comear com um pedido - disse ela, voltando-se para Patrick Lockwood. - Please, mister Lockwood, I need your help. Would you call the FBI immediately?
     - Of course... but what for?
     - Please, ask for a sample of Doctor Flanagan's signature. Would you do that? Would you ask them to send a fax right away with that sample?
     - O que ela est dizendo? - perguntou Andrade.
     Antes que a intrprete comeasse a traduzir, Magr interrompeu-a com um gesto.
     - Andrade, eu pedi ao agente Lockwood uma amostra da assinatura do doutor Bartholomew Flanagan que o FBI deve ter. Pedi que mandassem essa amostra por fax para 
c, o mais rpido possvel.
     Patrick Lockwood olhava em volta, sem saber se cumpria ou no o que pedira a menina.
     O doutor Hector Morales riu-se.
     - Ora, isso  uma brincadeira? Vamos ficar aqui perdendo tempo, enquanto...
     Andrade cortou.
     - Por favor, doutor Morales. Como eu j disse, quem comanda esta investigao sou eu.
     Com um movimento de cabea, autorizou o agente do FBI a atender o pedido de Magr.
     Depois de instrues do diretor da penitenciria, um guarda saiu com Patrick Lockwood da sala de interrogatrio.
     - Continue, Magr.
     - A polcia podia tentar encontrar os quatro homens que na certa so da quadrilha. Aqueles dois que estavam na frente do hospital e os outros dois gorilas que 
guardavam a porta do quarto de dona Iolanda, mas isso seria intil...
     - Voc viu a cara deles, Magr - lembrou Andrade. Podemos mostrar-lhe os arquivos de fotos de criminosos procurados. Se eles j tiverem sido fichados...
     - Ora, Andrade, vai levar um tempo! No temos tempo para isso! - exclamou Magr.
     Crnio interrompeu:
     - Mas tem um da quadrilha que s eu vi. E esse no  difcil de identificar.  um ano!
     - Um ano?
     - Sht? - perguntou o russo.
     - A dwarf, he sad - tentava explicar a intrprete para Iri Mikhailevich. - Do you understand? Oh, my! How do you say "dwarf" in Russian?
     Andrade tambm no estava entendendo: 
     - Que novidade  essa, Crnio?
     - Um ano disforme, Andrade. Um homenzinho horrvel, sinistro, que estava rondando nossas aes l no hospital. Ele se escondeu e desapareceu, logo que eu o 
vi. Pela cara dele, acho que  um bandido capaz das piores barbaridades!  um sujeito perigoso, sem dvida nenhuma. Acho que era quem estava coordenando a quadrilha, 
l no hospital. Na certa foi ele quem mandou seqestrar dona Iolanda, quando viu que ns estvamos na pista deles!
     Magr cortou a fala de Crnio com um gesto:
     - Crnio, quer ficar quieto? Quer esquecer essa bobagem de ano?
     - Mas, Magr, voc no diria que estou falando bobagem se visse a cara do ano. Ele  o sujeito mais assustador, mais suspeito que eu j vi!
     Magr foi dura, dessa vez:
     - Por favor, Crnio! Eu sei o que estou fazendo! 
     Crnio calou-se e Magr retomou seu raciocnio.
     - Tem alguns detalhes dessa histria que s eu testemunhei. Lembram-se de eu ter contado que,  noite, no avio, ouvi uma conversa entre o doutor Hector Morales 
e o doutor Bartholomew Flanagan?
     Os olhos de Hector Morales arregalaram-se:
     - Uma conversa entre mim e o doutor Flanagan, menina? No diga! O que voc ouviu?
     - Uma conversa corriqueira, doutor Morales. Mas, agora, pensando nela, eu...
     Foi interrompida pelo telefone, que tocava na sala ao lado. Um funcionrio o atendeu e chamou pelo diretor.
     - Tem um sujeito esquisito l no porto, diretor. Diz que tem de falar com urgncia com o detetive Andrade. Tentaram mand-lo embora, mas ele insste que tem 
informaes importantes sobre o seqestro da professora. Ele  um...
     Andrade interrompeu o funcionrio:
     - Como esse sujeito pode saber que eu estou aqui? 
     Magr tocou no brao do diretor, pedindo, com suavidade:
     - Deixe-o subir, diretor. No podemos abrir mo de nenhum depoimento. Se esse tal sujeito esquisito sabe que o detetive Andrade est aqui, precisamos descobrir 
quem  ele e o que quer.
     O diretor olhou para Andrade. Andrade olhou intrigado para Magr. Magr insistiu:
     - Por favor, Andrade. Por favor!
     Andrade fez um gesto com a cabea em direo ao diretor, autorizando mais aquela irregularidade na rotina da penitenciria. 
     - Mande trazer o visitante misterioso at aqui, diretor.
     O diretor estava dando as ordens para que revistassem direitinho o tal sujeito, antes de deix-lo entrar, quando o agente Patrick Lockwood voltou  sala de 
interrogatrios. Trazia um papel de fax nas mos. Estendeu-o para Andrade.
     - Here you are, detective. There are some samples of Doctor Flanagan's signature...
     Andrade pegou o papel, passou-lhe os olhos e entregou-o para Magr.
     A menina olhou detidamente o papel de fax. Abriu a mochila e tirou de l uma agenda. Abriu-a e colocou o papel de fax ao lado, comparando alguma coisa.
     Sua carinha iluminou-se. E foi com o sorriso mais lindo do mundo que a menina levantou o rosto e encarou a todos:
     - Gente, acho que resolvi o caso!
     

     
     
     
    21 . UM DESFECHO COM SOL E PRAIA
     
     Aquilo era demais para os agentes do FBI e para o diretor da Penitenciria de Segurana Mxima.
     Para a intrprete, a histria estava se tornando fascinante e a mulher assistia a tudo como se estivesse diante da tev. Normalmente, ela s traduzia encontros 
chatos entre executivos. Era a primeira vez que ela estava participando de uma reunio to emocionante.
     Para Andrade, porm, a surpresa era menor. Ele sabia do que era capaz aquela menina magrinha, de rosto lindo.
     Com a folha de fax sobre a agenda aberta, Magr sacudia o brao.
     - Era disso que eu precisava. Desde hoje  tarde tinha uma coisa na minha cabea que me incomodava. Eu me lembrei da conversa que ouvi no avio entre os dois 
cientistas da Drug Enforcement. Lembro-me que o doutor Bartholomew Flanagan falava para o doutor Hector Morales que odiava praia e calor, no gostava de sol, nem 
de areia. Era um homem da cidade grande, que detestava sujeira. Lembra-se dessa conversa, doutor Morales?
     O porto-riquenho americano sorriu:
     - No, acho que no. Num vo, conversa-se de tudo. Como  que eu vou me lembrar de pequenos detalhes?
     - Eu tenho mania por detalhes, doutor Morales - continuou Magr. - Mas no pensei nessa conversa quando vi as fotos do doutor Bartholomew Flanagan que os agentes 
do FBI trouxeram.
     Foi at a mesa, onde tinha deixado o envelope, e exibiu as fotos para todos.
     - Vejam. O que est nestas fotografias? O que vocs vem nelas? Um homem sorridente, de bermudas e camisa colorida, sempre em praias, sempre procurando o vero, 
no ? Um ex-surfista, que mora em Malibu, e passa as frias em Acapulco, na Flrida e no Hava. Esto vendo? Estas fotos poderiam ser de um homem "da cidade", que 
detesta praia, sol, calor e areia?
     O emudecimento foi geral. O que Magr mostrara parecia incontestvel, mas o doutor Hector Morales sorriu, condescendente, com carinho.
     - Muito bem, menina. Tudo isso pareceria perfeito se a realidade no fosse como ela . Eu conheo o doutor Bartholomew Flanagan h muitos anos. Eu sei e todo 
mundo sabe que ele detesta as cidades grandes, odeia andar de gravata. O que ele gosta  da natureza, do sol e das praias. Assim  o doutor Flanagan. Essa histria 
de que ele detesta praia e sol no faz o menor sentido!
     - Eu o ouvi conversando com o senhor, doutor Morales. E ele falava exatamente o que eu disse: que odiava praia, sol e calor - confirmou Magr.
     - Ora, menina! Havia dezenas de americanos naquele vo! Como pode ter certeza de que ramos ns dois?
     - Eu tenho certeza, doutor Morales.
     O doutor Hector Morales parecia possuidor da maior das pacincias. No queria ofender a menina e argumentava com grande delicadeza.
     - Est bem, eu sei que voc no inventaria uma coisa dessas. Mas pense bem. Quem acreditaria em voc? A conversa que voc ouviu poderia ter acontecido com qualquer 
outro par de americanos!
     - Temos mais um pequeno ponto a discutir, Doutor Morales - Magr no perdia a convico. - Quando amanheceu, no avio, dona Iolanda acordou-me dizendo que uma 
jornalista havia reconhecido o famoso doutor Flanagan naquele vo. Ela pegou sua agenda e correu para pedir um autgrafo. Esta  a agenda.
     Seu brao levantado exibia a agenda da professora junto com o papel de fax.
     - Agora eu quero que os senhores comparem a assinatura desta agenda com a assinatura do doutor Bartholomew Flanagan, que veio neste fax. Vejam! So duas assinaturas 
completamente diferentes!
     Andrade, o diretor e Patrick Lockwood fizeram a comparao. 
     - Verdade, Magr! - concordou Andrade. - Uma nada tem a ver com a outra!
     Miguel levantou-se:
     - Magr, o que voc quer dizer com isso?
     - Quero dizer que o homem que veio naquele vo, e que foi seqestrado no aeroporto, no era o doutor Bartholomew Flanagan!
     Hector Morales pulou da cadeira:
     - Quer dizer... quer dizer que os seqestradores levaram o homem errado?
     - O senhor devia saber, doutor Morales - respondeu Magr. - O senhor no disse que conhecia o doutor Flanagan h anos?
     - Bem, eu falei com ele por telefone, fax e telex durante quase dez anos. Pessoalmente, eu nunca o vi, mas o conhecia muito bem por fotografias. Acho que eu 
no poderia me enganar...
     O diretor deu sua opinio:
     - Bem, se a pessoa que estava no lugar do doutor Flanagan fosse muito parecida com ele, talvez qualquer um pudesse se enganar. Mas a questo : por que algum 
ia fazer-se passar pelo doutor Bartholomew Flanagan?
     - Isso eu no sei - retomou Magr. - Mas agora tenho certeza de que algum veio dos Estados Unidos no lugar do verdadeiro doutor Flanagan. E acho que essa pessoa 
veio sabendo que ia ser seqestrada. Veio para fazer parte de uma encenao!
     Andrade no acreditava no que estava ouvindo: 
     - Que absurdo  esse, Magr?
     - Meu palpite, Andrade,  que esse seqestro foi uma armao. Mas eu no tenho nada para provar essa tese, nem um palpite sobre o motivo de algum pensar em 
encenar o seqestro do doutor Bartholomew Flanagan. Mas, agora, eu j sei por que dona Iolanda foi baleada. E, sabendo disso, descobri quem  o chefe da trama toda...
     Durante o silncio que se seguiu, Magr passeou os olhos calmamente em torno da sala, at parar no rosto do doutor Hector Morales.
     - Quem encenou esse seqestro e quem mandou atirar na minha professora foi o senhor, no foi, doutor Hector Morales? 
     O americano de cabelo liso sorria e balanava a cabea.
     - My God! Eu no sabia que os jovens brasileiros tinham tanta imaginao!
     - Imaginao, doutor Morales? - continuava Magr. Por que somente dona Iolanda foi baleada no aeroporto? Por que roubaram a minha bolsa na confuso? Eu consegui 
ver a minha professora no hospital, antes de a seqestrarem. Ela estava l, superficialmente ferida, mas dopada. Por ordem de quem a doparam? O senhor no me disse, 
l na sala da Polcia Federal, no aeroporto, que eu podia ficar tranqila, que a Drug Enforcement cuidaria de dona Iolanda? Pois vocs cuidaram mesmo, no ? Mandaram 
uma falsa equipe mdica que assumiu o tratamento dela e a manteve sob anestsicos sem que ningum do hospital pudesse entrar no quarto!
     - Bullshit! Garanto que... Magr no o deixou continuar.
     - Eu tirei o anestsico do brao dela e consegui faz-la voltar a si. E ela ainda pde dizer: "Ele. . . ele mandou atirar em mim!" Foi o senhor quem mandou 
atirar na minha professora, doutor Morales!
     - Nonsense! Por que eu quereria mat-la?
     - Por causa do autgrafo. O senhor sabia que o ssia que veio no lugar do doutor Bartholomew Flanagan, um idiota provavelmente, assinara qualquer coisa na agenda 
de dona Iolanda. O senhor mandou bale-la, doutor Morales, e mandou roubar-lhe a bolsa com a agenda, para que ningum viesse a descobrir que aquela no era a assinatura 
do verdadeiro doutor Flanagan. Felizmente seus capangas confundiram as bolsas e levaram a minha, no lugar da dela!
     A intrprete, como uma metralhadora, traduzia tudo para Patrick Lockwood. O agente americano, ao ouvir a traduo, apontou para a menina e perguntou:
     - Who's that little woman? Supergirl? 
     Crnio respondeu, com orgulho:
     - She's our Wonderwoman, mister Lockwood!
     Iri Mikhailevich j tinha desistido de tentar entender qualquer coisa.
     Hector Morales continuava controlado, com um sorriso superior:
     - Ora, ora, menina! Mais uma vez s temos a sua palavra. Quem mais ouviu essa acusao de sua professora? S voc? Quem pode confirmar essa suposta declarao?
     Nesse momento, a porta da sala de interrogatrios abriu-se num tranco.
     - Eu posso! - disse o ano, de p, na soleira da porta. A intrprete deu um grito.
     Aquela era a apario mais horrenda daquela noite, desde que tinham descoberto o plano antropofgico do Doutor Q.I.
     Um ano horrendo mesmo. Sua face deformada torcia-se num sorriso que escancarava lbios grossos e maus.
     - O ano! - gritou Crnio. - Foi ele que eu vi! Ele est envolvido nisso at o pescoo! Prenda esse ano, detetive Andrade!
     - Deixe de besteira, Crnio! 
     Quem falara fora o ano.
     Ante a surpresa de todos, a feia criatura levou a mo ao pescoo. Cuidadosamente, comeou a arrancar a pele, a puxar, at que toda a carantonha horrvel saiu 
por cima da cabea, levando junto o chapu e o cabelo ensebado!
     - Chumbinho! - gritou Andrade.
     - Eu mesmo! - riu-se o menino, com a cara mais marota do mundo. - Eu mesmo, Crnio. Ah, ah! Te enganei, geninho! Eu acompanhei vocs esse tempo todo, sem que 
ningum notasse! Est vendo, Cal? Aprend esse truque com voc. Gostou da maquilagem?
     - Chumbinho, mas... - Andrade estava zonzo. - O que est acontecendo? Voc no tinha sido seqestrado?
     Magr levantou os braos, pedindo um pouco de ordem na balbrdia provocada pelo aparecimento daquele "ano".
     - Esperem um pouco! Acho que aprendi com o doutor Morales a simular seqestros. Desculpe, Miguel. Desculpe, Crnio. Desculpe, Cal. Mas foi a nica maneira 
que eu e Chumbinho encontramos para fazer vocs trs mudarem de idia...
     - Mudar de idia? - Andrade entendia cada vez menos. - Que idia?
     Miguel sorria, surpreso e orgulhoso da iniciativa daqueles dois Karas:
     - No ligue, Andrade.  uma coisa entre ns. Muito bem, Magr. Parabns, Chumbinho. Vocs fizeram a coisa certa! 
     Chumbinho exultava:
     - Eu estava timo de ano, no estava? Eu tinha de me disfarar, para continuar na brincadeira!
     - Brincadeira?! - espantou-se o diretor da penitenciria. - Voc chama isso de brincadeira?
     - Que graa teria eu ficar "seqestrado" e escondido como um bobo o tempo todo? Ah, eu precisava acompanhar vocs, ficar sabendo de tudo o que acontecia. S 
mesmo disfarado, n?
     Magr erguia novamente o brao e exigia que a discusso voltasse ao ponto em que tinha sido interrompida.
     - Um momento! Falta ainda resolver dois seqestros. O de dona Iolanda e o do doutor Bartholomew Flanagan!
     Chumbinho ria-se, feliz:
     - S o do doutor Flanagan, Magr. O da professora j est resolvido.
     - Resolvido? - perguntou Hector Morales. - E onde est ela?
     - Est l em casa. Muito bem de sade, alis... - informou Chumbinho, fazendo uma cara de quem fala a coisa mais natural do mundo.
     - Na sua casa?! - berrou Andrade. - Mas o que aconteceu? Vocs tambm simularam o seqestro da professora?
     - Esse no - continuou Chumbinho. - Eu estava escondido na viela, atrs do hospital, quando Magr saiu para encontrar-se com Crnio. Estava muito quietinho 
dentro de uma caixa de papelo...
     "Ai, ele estava l! Ento ele ouviu tudo! Eu e Crnio! Chumbinho sabe de ns dois!", pensou a menina, olhando disfaradamente para o geninho dos Karas.
     Crnio estava vermelho como um tomate.
     - Vocs saram no fusquinha e eu vi que alguma coisa estranha estava acontecendo no hospital. Os bandidos devem ter descoberto que Magr tinha trocado o frasco 
que mantinha dona Iolanda desacordada, e eu ouvi que eles iam lev-la dali. No perdi tempo e me meti no porta-malas do carro. Antes,  claro, dei um jeito de amarrar 
o fecho com um pano, para poder sair dali quando eu quisesse..
     - Boa, Chumbinho! - aplaudiu Magr.
     - O carro rodou bastante e foi parar em um galpo, na periferia da cidade. Eu sa do porta-malas e telefonei para Magr, de um orelho. Depois, foi s voltar 
para l e esperar. Deixaram s um gorila tomando conta da professora. Bom, eu j tinha visto ele fazer xixi l na viela. Mas, como ele tinha mais coisas para fazer, 
acabou saindo para um banheiro externo. Eu aproveitei e fui l dentro, com o meu canivetinho, cortar as cordas que prendiam dona Iolanda...
     - Que coragem, Chumbinho! - admirava-se Andrade. Mas como vocs fugiram de l?
     - De txi,  claro!
     Hector Morales estava de p. Toda sua segurana e autoconfiana pareciam ter desaparecido.
     Chumbinho, sorrindo como se estivesse contando uma travessura, olhou o presidente para a Amrica Latina da Drug Enforcement Inc.
     - Por isso eu posso confirmar o que Magr estava dizendo agora mesmo. Dona Iolanda me contou que, no aeroporto, quem apontou para ela ordenando que o capanga 
atirasse foi o senhor! Doutor Hector Morales
     Andrade levantou-se e olhou aliviado para o diretor da penitenciria:
     - Que sorte, diretor. No precisamos levar esse sujeito para a cadeia. Ele j est na cadeia!
     

     
     
     
    22. O AMOR PODE MUDAR O MUNDO
     
     Ao entardecer do dia seguinte, Andrade foi encontrar os cinco Karas no Parque do Ibirapuera. Sentaram-se no mesmo banco em frente  moita de azalias.
     O sol queimava, e o detetive comprou sorvetes para todos. 
     - Bem, meninos, o dia de hoje bastou para resolvermos todos os detalhes desse caso. Ns, aqui no Brasil, e o FBI, nos Estados Unidos, conseguimos descobrir 
tudo o que aconteceu...
     - timo! - aplaudiu Chumbinho. - Tudo resolvido? Encontraram tambm as amostras da Droga do Amor?
     Andrade olhou para o menino. Aquele menino brilhante, que tirara sozinho dona Iolanda das mos dos seqestradores. Mas no conseguiu sorrir.
     - O que houve, Andrade? - perguntou Cal. - Voc no parece muito feliz com a soluo do caso da Droga do Amor... O detetive tomou flego e disse depressa a 
pior parte das revelaes que tinha a fazer:
     - A Droga do Amor nunca existiu, meninos!
     - O qu?! O que voc est dizendo?
     - Espere um pouco, Magr. Deixe eu contar tudo desde o comeo. O doutor Bartholomew Flanagan, chefiando a equipe de pesquisadores da Drug Enforcement, acreditava 
realmente estar numa pista muito segura para a criao de um soro que curasse a maldita praga que faz com que o amor entre as pessoas transforme-se em morte. Mas 
as pesquisas eram muito caras, envolvendo engenharia gentica e tudo o mais. Com os primeiros estudos do doutor Flanagan, a Drug Enformecent conseguiu enormes financiamentos 
de todo o mundo... bilhes e bilhes de dlares... S que, no fim, o soro falhou.
     - A Droga do Amor falhou?!
     - No deu certo. Os testes in vitro, em laboratrio, estavam apresentando bons resultados, mas no provocaram nenhuma imunidade quando aplicados em seres humanos. 
E a Drug Enforcement estava atolada at o pescoo em dvidas. O que ia dizer aos acionistas? Como justificar esse imenso fracasso aos financiadores de todo o mundo?
     - O que era um problema de amor tornou-se um problema financeiro... - observou Miguel.
     - A diretoria ento tentou convencer o doutor Bartholomew Flanagan a continuar defendendo o soro nas revistas mdicas, alegando sua validade. A Drug Enforcement 
estaria falida se ele confessasse o fracasso. Mas o doutor Flanagan no concordou com essa farsa e ameaou convocar a imprensa e falar a verdade.
     - Que verdade horrvel! - lamentou Magr.
     - Os diretores da Drug Enforcement decidiram ento organizar a farsa completa. Escolheram o Brasil para os supostos testes finais da Droga do Amor e desembarcaram 
aqui um ssia do doutor Flanagan e uma caixa de frascos cheios de gua!
     Dos olhos de Magr, duas lgrimas escorreram, queimando-lhe o rosto. Naquele momento, ela lembrou-se da criancinha que vira no hospital...
     - O plano era simular o seqestro do falso cientista e o roubo das falsas amostras. Se tudo desse certo, o tal ssia do cientista nunca mais apareceria e nunca 
mais se saberia da caixa roubada. Assim, eles teriam uma tima desculpa para o desperdcio dos bilhes de dlares. E esperavam at mesmo conseguir novos financiamentos, 
para tentar retomar os estudos do doutor Bartholomew Flanagan. Escolheram o Brasil, por pensar que aqui seria mais fcil realizar um crime. No acreditavam em nossa 
polcia, nem em nossa capacidade de organizao. Mas eles no contavam que houvesse uina pessoa no avio que pediria um autgrafo ao falso cientista e estragaria 
tudo. No contavam tambm,  claro, com a esperteza e a teimosia da Magr. . .
     O elogio no mudou a expresso da menina. Aquela mentira a deixara arrasada.
     - Hector Morales era o encarregado de fazer funcionar o esquema aqui no Brasil - continuou Andrade. - Quando desembarcou, mandou um dos capangas atirar em dona 
Iolanda e mandou que algum lhe roubasse a bolsa que continha a agenda com o autgrafo do farsante. Morales est agora preso, e vai responder pelo seqestro de dona 
Iolanda e pelo falso seqestro do cientista. J capturamos tambm o tal ssia, que estava tentando fugir pelo Paraguai com nome falso...
     - E o que houve com o verdadeiro doutor Flanagan?
     - Ele no quis colaborar, Miguel. Por isso, foi assassinado um dia antes de embarcar... J descobriram o corpo dele no fundo do mar, em Tampa Bay, com os ps 
presos em um bloco de concreto... 
     - Que horror!
     - O FBI est trabalhando nos Estados Unidos para punir os culpados por essa barbaridade. Mas, quem so esses culpados? Somente os diretores dessa multinacional? 
Mas quem  realmente culpado pelos crimes praticados por uma grande empresa? Ser que no somos todos culpados, quando colocamos a nsia pelo lucro  frente das 
necessidades das pessoas? A quem podemos responsabilizar realmente pelo crime? Por todos os crimes do mundo?
     No dia seguinte, quando o mundo inteiro ficasse sabendo que a Droga do Amor era uma farsa, a tristeza e a decepo tomariam conta de todos. Mas, naquele momento, 
s aqueles seis amigos sentiam a dor que haveria de tomar conta do planeta...
     Magr no se conformava:
     - Ah, Andrade, todo esse esforo para nada! Eu no queria s vingar minha professora baleada. Eu no queria s brincar de detetive, descobrindo seqestradores! 
Eu queria realmente que todo esse trabalho tivesse sentido! Eu queria a Droga do Amor! Para salvar a vida da criancinha que eu vi no hospital! Eu queria salvar a 
vida das pessoas condenadas somente porque confiaram no amor!
     Andrade tambm chorava. Abraou Magr apertado, beijando-lhe o rosto vrias vezes, bebendo as lgrimas daquela pequena herona.
     - Ah, Magr, o seu trabalho teve o maior sentido, minha querida! Voc lutou por amor! Por amor a sua professora, por amor a todas as pessoas do mundo.  isso 
que faz com que esse mundo valha a pena, querida! So pessoas como voc que fazem a gente continuar em frente, com confiana. A cincia encontrar a verdadeira Droga 
do Amor, mais dia menos dia. E o seu amor pela humanidade far parte da frmula. O seu amor pode mudar o mundo, Magr, minha menina!
     Durante longo tempo, os nimos daqueles seis amigos calaram-se, tentando recuperar-se. E foi a fora da amizade que os unia que, pouco a pouco, os acalmou.
     Cal quebrou o silncio:
     - Temos de confiar! A praga do sculo ser vencida! 
     Andrade acariciou os cabelos lindos de Cal.
     - A praga do nosso sculo no  uma s, meninos. Nosso sculo, infelizmente, tem muitas pragas. A fome, a misria, a ignorncia... Mas tudo isso  causado pela 
cobia, pela avidez que cria monstros como esses, da Drug Enforcement, ou como o Doutor Q.I., para quem a conquista do poder e do dinheiro justificam tudo. Eu vivo 
prendendo criminosos pobres, ignorantes, que matam uma, duas, trs pessoas. Mas jamais consigo pr as mos nesses verdadeiros criminosos, que matam milhares, que 
condenam milhes  fome e  morte sem esperanas...
     
     ***
     
     Antes de ir para o Colgio Elite, Magr passou pelo hospital onde estivera dona Iolanda.
     Pediu para fazer uma visita  ala de isolamento infantil. Subiu para o quinto andar, dessa vez de elevador, e entrou no quarto onde se escondera dois dias atrs.
     L estava o bercinho. L estava a criana que ela vira adormecida. Cuidada por uma enfermeira sorridente.
     - Ele est melhorzinho... - comunicou a enfermeira. O beb estava sentado no bero, sorrindo para Magr.
     A menina aproximou-se, beijou-o ternamente e entregou-lhe o seu querido ursinho de pelcia. Era o presente mais pessoal que ela poderia ter trazido.
     A criana sorriu mais ainda e abraou-se ao ursinho.
     - Voc vai ficar bom, meu queridinho! Eu sei que vai! Voc tem de viver! O amor vai vencer o dio, meu amorzinho. Ns vamos vencer a morte!
     
     ***
     
     Magr foi a ltima a subir para o esconderijo secreto. Os outros quatro Karas j estavam l, sentados, em silncio.
     Miguel, que j telefonara para a sede do tal acampamento, desistindo da vaga de monitor, perguntou, com um sorriso:
     - Por que vocs inventaram de assinar o tal bilhete de resgate com aquele "Q.I."? Isso fez com que eu, Crnio e Cal ficssemos com a certeza de que ele era 
o culpado de tudo!
     - Naquela hora, eu e Chumbinho tambm achvamos que o Doutor Q.I. estava por trs de tudo. Desculpem... A gente errou... Aquela menina, responsvel por desvendar 
uma trama cruel como aquela, admitia que estivera errada. Em apenas um ponto que fosse. Ela era um Kara.
     O silncio ocupou novamente o forro do vestirio. Magr olhou um por um. Os seus Karas!
     Ela havia convocado a reunio. Ela teria de comear a falar. 
     - Eu pensei muito, Karas, depois que Chumbinho me contou que vocs trs queriam dissolver o nosso grupo. Chumbinho no entendia por qu, mas eu entendi...
     Ningum falou. S Chumbinho olhava para Magr. Os outros trs concentravam-se no p que recobria o forro do vestirio do Colgio Elite.
     - Ns chegamos a um beco sem sada, no ? Pois bem, vamos resolver logo isso.
     Olhava fixamente para cada urn dos seus queridos Cal, Crnio e Miguel.
     Seu olhar encontrou o de Chumbinho. O menino agora era dono de um segredo seu. O seu maior segredo. Mas Magr sabia que Chumbinho nunca, nunca falaria.
     Como era bom, como era gostoso viver gostando daqueles amigos! Apesar da dificuldade da situao, apesar de tudo o que tinha de dizer, Magr sentia-se bem, 
aquecida, confortvel, pela proximidade daqueles garotos maravilhosos.
     - Pensei muito, queridos, chorei muito pensando. O que seria uma soluo final para o nosso problema? Seria uma escolha minha? Uma deciso?
     A emoo enchia-lhe os olhos de lgrimas. Ningum movia um msculo e Magr pediu:
     - Olhem para mim, por favor, olhem para mim!
     Um a um, aqueles rostos foram se levantando. Todos aqueles olhos estavam vermelhos. Todos estavam a ponto de chorar tambm. Magr leu naqueles olhos um pouco 
de esperana, mas leu tambm um pouco de medo.
     - Como eu posso escolher, queridos? Eu coloquei na balana dos meus pensamentos, de um lado, a escolha que eu tinha de fazer. Do outro, essa incrvel amizade 
que une a gente. Agora me digam, qual de vocs acharia justo ferir os outros dois se eu escolhesse um de vocs? Qual de vocs, por uma namorada, acharia justo destruir 
o grupo dos Karas?
     Nesse momento, as lgrimas j corriam por todos os rostos. Molhados, os rostos de Miguel, de Cal e de Crnio iluminavam-se aos poucos. Eles comeavam a entender.
     - Ser que o meu amor de mulher por um de vocs pode ser maior do que o amor de ser humano que eu tenho por todos vocs? Por voc Miguel, por voc Chumbinho, 
por voc Cal, por voc, Crnio? O que pode haver de maior do que ns cinco?
     A excitao era imensa. Os cinco Karas olhavam-se sem falar, respirando ruidosamente, arfando, como se tivessem acabado de disputar uma maratona.
     Num repente, jogaram-se nos braos uns dos outros, soluando e formando uma montanha de afeto, de carinho, de paixo! Magr sentia aqueles corpos espremidos 
contra o seu.
     De olhinhos fechados, sabia distinguir o calor do seu escolhido. Mas aquela amizade era demais. Os Karas eram demais! No seria uma escolha dela que haveria 
de dissolver a amizade dos Karas. O amor que unia aqueles cinco era maior do que o amor daqueles trs garotos maravilhados por ela. Era maior do que o seu amor pelo 
garoto que a fazia tremer como mulher.
     Ela j tinha escolhido. Para sempre, seu corao guardaria aquele segredo. A amizade vencera o amor.
     Os Karas nunca, nunca se separariam...
     
     Traduo das falas em ingls e em russo
     
     - Eu imagino como esse pas ... 
     -  realmente quente...
     - Eu odeio o calor. Oh, como eu odeio o calor! 
     - Bem, h lindas mulheres l. E lindas praias...
     - Eu sou um homem da cidade. Odeio praias. No gosto de areia e todas aquelas coisas sujas. Prefiro ver lindas prostitutas...
     - Bem, esquea tudo isso. Nossa tarefa  o que interessa. Voc est perfeitamente preparado?
     - Acho que sim. Mas no sei se ensaiamos o suficiente... 
     - Voc sabe tudo o que precisa saber. Tudo vai dar certo...
     
     - Al... O qu? Por Deus!... Deveramos ter esperado por algo assim... Meu Deus! Um bilho!... OK, nos encontraremos mais tarde. No faa nada at eu chegar 
a. Certo! 
     - Bem... Esse  o nosso suspeito nmero um...
     - O qu?... Oh, desculpe... Desculparr mim... Eu no estou entendendo muito bem... Mim no estarr entendendo dirreito.
     - O qu? O qu? O que ele disse?
     - Aqui est, detetive. Ns trouxemos tudo o que precisamos saber sobre o doutor Bartholomew Flanagan. Aqui esto algumas fotos e uma ficha com um resumo sobre 
sua vida.
     - O qu? O qu? Desculpe... Eu no estou entendendo direito... Mim no entender. ..
     - Que diabo estamos fazendo aqui, doutor Morales? (...) - O que pretendemos encontrar nesta priso? O suspeito fugiu! Devemos procurar por ele em outro lugar. 
Estamos perdendo tempo precioso!
     - No se preocupe, agente Lockwood (...) - Detetive Andrade  um timo policial; foi o que disse nosso cnsul. Ele sabe o que est fazendo. Estamos aqui s 
para observar. Vamos esperar e ver o que ele pretende fazer.
     - O qu? O qu? O que ele est falando? Mim no entender... '' 
     - Mim entenderr! Eu estou entendendo! Mim entende.
     -  aqui que eles torturam os presos?
     - Beijo! Beijo! Ns os russos gostamos muito de nos beijar! 
     - Meu Deus! Meu Deus!  horrvel...
     - Por favor, senhor Lockwood. Preciso de sua ajuda. O senhor poderia telefonar para o FBI, imediatamente?
     - Claro... mas para qu?
     - Por favor, pea uma amostra da assinatura do doutor Flanagan. O senhor pode fazer isso? Pea para eles enviarem um fax, a seguir, com essa amostra.
     - Um ano, ele disse... Voc entende? Oh! Como se diz "ano" em russo?
     - Aqui esto, detetive. Algumas amostras da assinatura do doutor Flanagan... - Quem  essagjovem? Supergirl?
     - Ela  nossa Mulher Maravilha, senhor Lockwood!
     

     
     
     
     AUTOR E OBRA
     
     Nasci em Santos, em 1942, e sou paulistano desde 1961. Estudei Cincias Sociais, fui uma poro de coisas: de ator a publicitrio, de jornalista a editor, at 
transformar-me, desde 1983, em um escritor para jovens. Talvez voc j conhea alguns dos meus livros, como A Droga da Obedincia, Pntano de sangue e Anjo da morte, 
as outras trs aventuras com os Karas, ou talvez j tenha lido tambm A marca de uma lgrima, Agora estou sozinha..., Na colmia do inferno, Minha primeira paixo, 
O fantstico mistrio de Feiurinha ou O mistrio da fbrica de livros.
     J me perguntaram por que os meus "Karas", Miguel, Magr, Cal, Crnio e Chumbinho so jovens sem problemas financeiros ou sociais, por que so to perfeitos. 
A minha resposta  sempre esta: porque eles so o meu sonho.  assim que eu sonho que todos os jovens deveriam ser, em todo o mundo. Sem problemas financeiros, inteligentes, 
sadios, honestos, conscientes, corajosos, estudando em boas escolas, tendo recursos e oportunidades para lazer, esportes, cultura e, principalmente, ligados ao mundo, 
sempre prontos a defender a verdade, o amor, a justia e a igualdade. Os Karas so o meu projeto de vida para vocs, jovens leitores brasileiros, que demonstram 
tanto carinho para comigo e para com esse grupo de jovens maravilhosos como vocs.
     O texto de A Droga do Amor foi escrito quase dez anos depois da primeira aventura dos Karas, A Droga da Obedincia. Muitas, muitas cartas de leitores pediam-me 
mais uma histria com eles. Demorei, mas aqui est ela, cujo contedo , para mim, muito importante: a amizade entre vocs, que adoram suas "patotas", que se apoiam 
no amor mtuo para, juntos, enfrentar o mundo adulto. Ao longo de suas vidas, por favor, nunca se esqueam do valor dessa amizade da adolescncia. A fora, a confiana, 
a honestidade e o entusiasmo que hoje moram no corao de vocs so combustvel suficiente para durar toda a vida. No deixem jamais que essa chama se apague.
     O segundo ponto do enredo  a tremenda doena de transmisso sexual que ameaa a humanidade. Em nenhum ponto do texto, nem agora, eu citei sua denominao. 
H um propsito nessa omisso. No sculo passado, o dramaturgo Kenrik Ibsen escreveu Os espectros, uma pea que discute as conseqncias da sfilis, sem citar esse 
nome. Em 1936, Luigi Pirandello escreveu O homem de flor na boca, onde mostra os problemas de um homem com cncer, sem citar o nome da doena. Com isso, essas duas 
peas tornaram-se sem data. Atualmente elas so remontadas e prestam-se perfeitamente  discusso do problema da atual "praga do sculo". O que fiz foi apenas seguir 
o caminho de Ibsen e Pirandello.
     
     Pedro Bandeira
